Crítica

  • PELE NEGRA TELA BRANCA: COMPASSO DE ESPERA

    A espera do compasso é o tempo em que um músico aguarda sua deixa para entrar no ritmo da melodia. “Compasso de Espera” é escrito e dirigido por Antunes Filho, dramaturgo e diretor de teatro de relevância, branco. O filme narra a solidão de um poeta e publicitário negro de classe média: Jorge, interpretado por…

  • Conhecer de vista: Quelé do Pajeú

    Tal como as cenas iniciais de Quelé do Pajeú, Anselmo Duarte está longe de desfrutar de um cômodo consenso crítico. Apesar de ter conquistado a única Palma de Ouro já atribuída a uma produção nacional, com O Pagador de Promessas (1962), ele permanece numa ingrata zona cinza da história da cinematografia brasileira. Chamá-lo de cinemanovista…

  • O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti 

    Em torno de 1953, época em que “O Canto do Mar” foi gravado e distribuído, o Brasil experimentava os primeiros anos de uma forte, e tardia, transformação social. A urbanização, a industrialização, e a sociedade de massa solidificavam suas raízes — cada vez mais fincadas quase exclusivamente na região Sudeste do país, onde grandes cidades…

  • Ôrí, dir. Raquel Gerber (1989)

    Eu me lembro dos fatosQue meu avô cantava nas noites de frioNão chorava, porém não sorriaMentir não mentia, fingir não fingiu Deu bandeira, dançou na primeiraDançou capoeira, dançou de bobeiraDançou na maior, deu canseiraSambou na poeira, tossiu na fileiraDançou pra danar Liberdade além do hÔrízonteMorreu tanta gente de tanto sonharQuem foi? (Foi Zumbi!) Itamar Assumpção –…

  • ADEUS ANO VELHO – BABILÔNIA 2000

    No filme, o quão enganosamente simples são as coisas talvez só seja menos arrebatador que perceber o quão verdadeiramente simples elas são. Não é nenhum segredo e talvez seja até um pouco envelhecida a ideia de que é necessária uma complexidade desproporcional para chegar numa compreensão (analítica e reprodutiva) da simplicidade. Porém, também não é…

  • Amanhã (Bar esperança, Hugo Carvana, 1983)

    A vista fica duplicada: o efeito que um filme tão marcadamente atrelado a determinado tempo e lugar é capaz de provocar, observado com a distância dos anos, é dos mais complexos. Em que ano estamos, mesmo? O que era um bar (ou, o BRA… sil, como, algumas doses depois, poderia embaraçar o bêbado) em 1983…

  • Ousar, sonhar e criar (Feminino Plural, Vera de Figueiredo, 1976)

    Feminino plural inicia do jeito mais real e cru possível no momento em que estampa já em seu título de quem está falando. No – e em – primeiro plano, fora de foco, mas repleto de fluido, sangue e dor apresenta o corpo de uma mulher que exerce ali o que talvez seja o mais…

  • Discreto charme, aurora juvenil

    “Foi no meio do salãoFoi lá por 72Que eu descobria lei dos corposFoi céu aberto, verdes anosPouco mais que nada pra pensar”(Verdes Anos, de Nei Lisboa) Fazer um filme era como montar uma banda de rock na Porto Alegre dos anos 80. Uma gurizada se juntou e com uma câmera super-8 em mãos fez alguns…

  • Bicicletas de Nhanderú

    Uma câmera na mão acompanha dois meninos jovens. Eles andam por um campo e cruzam cercas. Por vezes, olham para o cinegrafista que os segue: “Você gravou os palavrões que eu disse ontem?”, um deles pergunta. Momentos como esse, em Bicicletas de Nhanderú, de Ariel Kuaray Ortega e Patrícia Ferreira Pará Yxapy, transparecem como o…

  • Uma Noite, Uma Mesa, e a Espera pela Morte: uma crítica sobre Até o Fim

    É na proporção de tela 4:3 que assistimos, durante 1h33min, quatro mulheres sentadas em uma mesa, durante uma noite, à espera da morte. Até o Fim (2020) apresenta a história das irmãs Arcanjo por meio de diálogos que, naturalmente, transformam-se em monólogos carregados de um teor teatral que se mescla ao poético, trazendo uma naturalidade…