A espera do compasso é o tempo em que um músico aguarda sua deixa para entrar no ritmo da melodia.
“Compasso de Espera” é escrito e dirigido por Antunes Filho, dramaturgo e diretor de teatro de relevância, branco. O filme narra a solidão de um poeta e publicitário negro de classe média: Jorge, interpretado por Zózimo Bulbul, que lida com diversos casos de racismo no ambiente de trabalho e na relação amorosa. Jorge conhece Cristina, interpretada por Renée de Vielmond, uma jovem branca e rica, e eles se apaixonam. Paralelamente, ele mantém um conturbado relacionamento com sua chefe na agência publicitária, Ema (Élida Gay Palmer) – relações que, embora distintas na abordagem, compartilham uma mesma impossibilidade de plenitude.
Filmado em 1969 e finalizado em 1973 devido à censura militar, o filme foi lançado sem cortes graças aos esforços de Zózimo Bulbul e, apesar dos esforços, o filme encontrou dificuldades com o mercado de exibição, tendo lançamento limitado e recebendo quase nenhuma repercussão crítica. Os principais exibidores não se interessaram pelo filme por conta da estética dos negativos em preto e branco. O preto e branco, além de ser uma opção que barateava os custos da produção, foi uma opção monocromática para dar ao filme um aspecto mais bruto, cru e como marca do cinema novo: do subdesenvolvimento.
“Compasso de espera” é o primeiro e único filme de Antunes Filho. Em um encontro promovido durante o FestA! – Festival de Aprender de 2017, o diretor clamou ter feito o “primeiro filme a retratar o negro na classe média”. Fora dos méritos, a ficção funciona aqui com catalisadora da realidade: ao retratar uma história de um personagem negro de classe média, o filme propõe pensar um personagem negro como sujeito universal de sua história. Mas há um ruido que se produz, não só com a trilha estonteante e destoante em jazz anárquico; um ruido de imaginário em angústia: Jorge nunca será poeta, e sim poeta negro (ou negro poeta?).
Essa perturbação evidencia falências e ignorâncias do dito progresso, do futuro promissor, do mito da igualdade racial que o Brasil promete ad infinitum. “A luta no Brasil nunca será racial, será contra a pobreza: uma luta comum de brancos e negros”. Se há uma luta comum, quais as lutas incomuns? O filme é uma resposta a essa afirmação.
O racismo é tratado como um assunto inexistente no Brasil tanto pelo governo militar quanto para o status quo nacional. Ao mesmo tempo, contraditoriamente, mostrar um relacionamento interracial era também um fato ameaçador, uma perturbação da ordem natural das coisas, visto de forma degradante: baixaria intrinsicamente ligada à safadeza.
Racismo no Brasil? Não, capaz. Afinal, temos Pelé, a constituição, as leis, e tantos outros exemplos como esses citados pelo apresentador de TV branco. Falsos sentidos práticos de cidadania plena de direitos. Ideias-imagens que refletem um país diferente da realidade. As aparentes mudanças são só ações paternalistas que mantém o funcionamento da desigualdade enfeitada com caprichos condescendentes.
O dilema não só se estende à ficção, mas à técnica, à produção de imagens: Jorge trabalha com publicidade, criando designs, visitando gravações, ensaios de foto, mas nunca é visto e entendido inteiramente. No final da sequência da entrevista para a televisão, vemos a perspectiva da sala de edição, e lá o diretor manda: “atenção câmera, você aproxima o máximo, assim a gente não precisa dar escurecimento no final”. As ferramentas de produção e divulgação de imagens também fazem parte do circuito de violências, de estereotipação do corpo negro. Nesse breve comentário, pontua-se que o tratamento de imagem também está enviesado às práticas excludentes por caráter racial.
A inspiração em estudos acadêmicos influenciou na forma do filme como resquícios sobreviventes da escravidão. Várias cenas são Jorge fazendo palestras, falas públicas, que citam diversos autores como o martinicano Aimé Césaire, o trinidadiano Stokely Carmichael, e o brasileiro Millôr Fernandes entre vários outros que também exploram as dimensões do racismo. O filme apresenta como um caleidoscópio um panorama das ideias em debate, sem assumir um caráter panfletário do que fazer, mas expondo contradições internas, vulnerabilidades emocionais, os altos e baixos, as ferramentas de sobrevivência etc.
Na mesma época, outros filmes do Cinema Novo narraram a figura do intelectual-artista atormentado por questões políticas, tanto na vida pessoal quanto numa escala macro e institucional: Em “O Desafio” de Paulo Cesar Saraceni e “Terra em Transe” de Glauber Rocha há protagonistas urbanos que encarnam um impasse individual e coletivo – Zózimo Bulbul, inclusive, faz um pequeno papel como jornalista em “Terra em Transe”. Nesses filmes, o tema do racismo aparece entre outros assuntos políticos, já “Compasso de Espera” coloca a perspectiva racial em primeiro plano. Perspectiva que faz o filme ecoar até hoje: a presença do personagem negro no mundo e no cinema.
A relação com Ema é ao mesmo tempo mutualista e predatória: ao dar oportunidades de trabalho e ajuda financeira, ela é simultaneamente uma presença ameaçada e possessiva ao longo do filme, invadindo espaços, como no apartamento de Jorge, ou se intrometendo na narrativa amorosa com Cristina. Jorge até chega a confrontar em forma de uma confissão para Ema que sente medo. Esse medo é o que está por baixo de todas as armaduras erguidas por ele, seu sentimento mais presente e externalizado ao longo do filme. Solitário e coletivo.
O tema da solidão é crucial para Compasso de Espera. O filme trabalha de diferentes maneiras o tema do isolamento através de seu protagonista. Jorge é mostrado em muitas cenas como exceção: em espaços hegemônicos é o único num ambiente branco. Tolerado como curiosidade nos espaços intelectuais pelos brancos, e sendo aquele que pensa diferentemente de seus amigos e colega do movimento negro. Até mesmo em sua família, como o filho que deixa o lar familiar e deixa de pertencer àquele ambiente, tendo as críticas mais assertivas dadas pela irmã Zefa (Léa Garcia).
A solidão de Jorge é construída através de uma linguagem cinematográfica precisa e direta: planos em plongée que o diminuem na paisagem urbana, na montagem que enfatiza seu descompasso com o entorno e o contraste do preto e branco como metáfora visual da segregação: o mundo branco e o mundo negro fazem contato, mas estão profundamente separados.
Isolamento é também um elemento espacial em “Compasso de Espera”. No entanto, tal isolamento é mais do que espacial; Jorge está sozinho mesmo na presença de outros. A montagem dinâmica o faz ver, sentir, ouvir, mas ele não pode responder sinceramente sobre o que pensa ou sente.
O filme se encerra de uma semelhante forma como começa: com Jorge à margem do quadro, pequeno e isolado na mise en scène. Seu destino é ambíguo, mas alude a uma circularidade. Sem pertencimento, Jorge é condenado à invisibilidade em um mundo branco que insiste em negar sua existência. Quase no fim, caminha em ruas com buracos, rumo a uma nova possibilidade de fabulação própria. No único momento em que é tratado de forma humana: na interação com outros três personagens negros. A trilha sobe com um soar de violinos otimistas que, aos poucos, conforme seus caminhos divergem, destoa em um ensurdecedor ruído angustiante. Não há outra saída para ele neste mundo, a não ser o caminho de pedra. Fade to white. O branco está em toda parte.


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