A história do cinema brasileiro é contada, muitas vezes, em decênios: os ciclos regionais dos anos 1920, o som sincronizado e os carnavalescos dos 1930, as chanchadas dos 1940, o “pensamento industrial” dos 1950, o Cinema Novo nos anos 1960… São narrativas importantes para a compreensão do cinema, mas, se abrirmos essas propostas de história, que contradições podemos encontrar no cerne de cada década?
No segundo semestre de 2026, o Cineclube São Bernardo propõe esse exercício: a partir de duplas, explorar contradições e particularidades dos cinemas de quatro décadas diferentes do cinema brasileiro. Os anos 1950, 60, 70 e 80, de agosto e novembro, na telona da Cinemateca de Curitiba.
Começamos pelos anos 1950 explorando dois filmes que resultam quase que em exercícios ou ensaios. Na Senda do Crime e Rua Sem Sol dividem o mesmo ano de lançamento, 1954, um semelhante interesse pelo gênero policial e pelo desenvolvimento do cinema brasileiro, combinando filmagens nas ruas e em estúdios. Porém, há algo no coração de ambos que os diferem. Entre o projeto de cinema da Vera Cruz, encabeçado aqui pelo italiano diretor Flaminio Bollini Cerri, e o projeto do crítico tornado diretor Alex Viany, estão visões aparentemente opostas do que poderia ser esse “cinema brasileiro”. Algumas perguntas básicas podem nos aproximar desses objetos: como se dão essas filmagens nas ruas? Como os códigos do gênero são utilizados nos filmes? As respostas não são tão simples quanto parecem.
Sessão 01 – 05/08/2026 – Na Senda do Crime
Direção: Flaminio Bollini Cerri
Ano: 1954
Duração: 71 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: Sérgio (Miro Cerni) quer mais. Sobrinho de um rico banqueiro, o jovem ambicioso está insatisfeito com sua vida morosa de luxos. Um dia, quando um grupo de ladrões fracassa no assalto à casa de seu tio, Sérgio decide acobertá-los e se junta ao bando, passando a liderá-los em novos crimes. A polícia não demora a fechar o cerco. Sérgio precisa tentar fugir e ainda lidar com todos os problemas que criou. Em 1954, os produtores e o projeto industrial de cinema da Vera Cruz dão pólvora para que o encenador de teatro e cinema italiano Flaminio Bollinio Cerri componha um filme brasileiro à lá noir, de raro fôlego e interesse pelo gênero.
Sessão 02 – 19/08/2026 – Rua Sem Sol
Direção: Alex Viany
Ano: 1954
Duração: 86 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: Marta (Glauce Rocha), que cuida de sua irmã cega depois da morte do pai adotivo, é acusada de um assassinato. A verdade do caso, aos poucos, é revelada aos policiais, conforme descobrimos o porquê do acontecido. No típico enredo moral de Rua Sem Sol a protagonista passará por poucas e boas, na tentativa de prover cuidados a irmã e sobreviver à ruína econômica. Alex Viany, crítico histórico do cinema brasileiro, dirige em Rua Sem Sol seu segundo longa-metragem, entre o drama social e o filme policial.
Texto do ciclo: Setembro
Em ebulição nos anos 1960, os desejos de falar sobre o povo e para o povo muitas vezes estiveram em conflito, nas voltas de novas linguagens cinematográficas que se desenvolviam sem parar. Os dois filmes aqui apresentados, um de 1964, ano do golpe, e o outro de 1967, mesclam arte popular, música, anedota, canção, folclore, religião, conto moral, luta de classes e mais um conjunto de elementos que compõem uma filmografia de novidades, mas que também tentava dar novas roupagens ao que já era familiar e pertencia ao povo. Contradição natural de um cinema que buscou, na medida dos seus próprios desejos estéticos, lidar com a identidade brasileira para além dos moldes estabelecidos pelos projetos industriais interrompidos na década anterior.
Sessão 03 – 09/09/2026 – Esse Mundo é Meu
Direção: Sérgio Ricardo
Ano: 1963
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: Favela do Esqueleto. Dois homens, um branco (Sérgio Ricardo) e outro negro (Antonio Pitanga), um metalúrgio, o outro engraxate, vivem na mesma favela e precisam da mesma coisa: dinheiro. A estreia de Sérgio Ricardo na direção de longas parte de interesses comuns aos cinemanovistas, sobe o morro e filma as contradições da cidade. Mas com a cara, o violão e a verve do diretor, o realismo urbano flerta com o musical e, na iminência do golpe de abril, se carrega da incerteza e da revolta com o futuro.
Sessão 04 – 16/09/2026 – Proezas de Satanás na vila de Leva-e-Traz
Direção: Paulo Gil Soares
Ano: 1967
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: A vila de Leva-e-Traz esconde um mítico Brasil arcaico, no qual o conflito eterno pelas riquezas da terra ganha ares de batalha contra as forças do mal. Quando petróleo é encontrado nos arredores da vila, a máquina endiabrada do progresso causa uma debandada por trabalho, lançando infortúnio sobre os moradores remanescentes. Oportunidade perfeita pra ele: Satanás. O absurdo da comédia, o imaginário do horror e a voz agridoce de Caetano são o motor deste longa enérgico de Paulo Gil Soares.
Texto do ciclo: Outubro
Brasil, anos 1970. A ditadura prolonga o terror e fortalece a censura no começo da década. Aos poucos, o tal milagre econômico revela sua face e abre cada vez mais espaço para a desigualdade socioeconômica nas metrópoles brasileiras.
No cinema, um contrassenso: avança, a partir do fomento institucional, uma realização nacional de cinema popular de grande alcance e orçamento. A paisagem cinematográfica na década é diversa: explode a radicalidade das margens com sua realização fugidia, escondida da censura, em 35, 16 e 8mm, e a realização impulsionada pelos anos de pujança e distribuição na Embrafilme sustentam o sonho de outrora de uma indústria nacional.
A poesia despojada do ciclo superoitista dos setentas rasga a tela do Cineclube São Bernardo em uma sessão dupla, com Nosferato no Brasil, dirigido pelo carioca Ivan Cardoso e protagonizado por Torquato Neto, e O Terror da Vermelha, esse com direção de Torquato, parte do ciclo piauiense de cinema em 8mm. E do outro lado, no final da década, as filmagens de Carnaval e thriller policial do prolífico Walter Lima Jr. dão vida ao longa A Lira do Delírio, que compõe a segunda sessão do mês.
Esperamos vocês na Cinemateca de Curitiba em outubro!
Sessão 05 – 14/10/2026 – Sessão de Curtas
Sessão de curtas
Filmes: “O Terror da Vermelha” e “Nosferato no Brasil”
Direção:
- O Terror da Vermelha – Torquato Neto
- Nosferato no Brasil – Ivan Cardoso
Anos:
- O Terror da Vermelha – 1972
- Nosferato no Brasil – 1971
Duração:
- O Terror da Vermelha – 33 minutos
- Nosferato no Brasil – 27 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopses: Budapeste, Rio de Janeiro, Teresina. Itinerário marcado pelo sabor de sangue e tropicalismo em dois filmes do começo dos anos 1970: Nosferato no Brasil, dirigido por Ivan Cardoso, em que Torquato Neto interpreta o lorde vampírico do título caçando jovens garotas nas efervescentes praias cariocas, e O Terror da Vermelha, este dirigido pelo próprio Torquato Neto, no qual um assassino à solta persegue a juventude andante dos bairros de Teresina. Radicalidade e invenção marcam a passagem desses 2 cineastas pelo Super 8, em plena época de marginalidade.
Sessão 06 – 21/10/2026 – A Lira do Delírio
Direção: Walter Lima Jr.
Ano: 1978
Duração: 105 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Ness Elliot (Anecy Rocha) está em dificuldade. A necessidade de dinheiro a leva a transportar drogas de São Paulo ao Rio de Janeiro. Os relatos são difusos. As coloridas imagens dissolvem o jogo de cena. Mas tudo dá errado quando Ness perde a bolsa com os tóxicos e bandidos raptam seu filho. O registro da efusividade da festa de rua carioca se entremeia com os indícios de uma trama noir. A rede de crimes e peripécias cresce e envolve os personagens de Paulo César Pereio, Cláudio Marzo, Antonio Pedro e Tonico Pereira, para tudo se acabar em carnaval.


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