CRITAIS DE SANGUE
Texto escrito por Rogério Medeiros e publicado na Tribuna da Imprensa RJ em 2 de setembro de 1976
“A ideia de realizar Cristais de Sangue surgiu de relatos de amigos que foram realizar um levantamento numa região do interior da Bahia, até então praticamente desconhecida, pelo menos para o sul do país. O filme foi rodado na Chapada Diamantina, região diamantífera do interior da Bahia que foi palco, durante décadas, de disputas entre as famílias donas de garimpos, e também entre os donos de garimpo e os garimpeiros”, é o que diz Luna Alkalay, diretora de Cristais de Sangue.
É a história de um africano de Moçambique, Rui, que vem para o Brasil, à procura de seu pai, Sunzé, aparentemente desaparecido nas montanhas da Bahia.
Uma história sem tempo definido, onde a própria realidade aponta aberturas para a fantasia – Cristais de Sangue é um longa-metragem que se desenvolveu retratando as tênues barreiras que existem entre o real e o fantástico.
“Com muita dificuldade conseguimos levantar a produção e com uma equipe de 14 pessoas partimos para o desafio da Chapada Diamantina. Quanto à população do lugar, esta foi determinante para o que o filme com mais de 200 figurantes. Além de estarem sempre à disposição da Câmera, ajudando e trazendo mais estórias, eram de uma beleza tão comovente que dificilmente poderia ser apreendida por um filme.
Fiz o possível tanto que hoje Cristais de Sangue é – fico satisfeita com isso – um longa metragem semi-ficção e semi-documentário. Foram 40 dias de filmagem em que se viveu em perfeita harmonia com a região, cada qual consciente de seu papel dentro da realização do filme e dentro do cinema brasileiro”. A diretora e os produtores estão preparando uma grande festa para o lançamento do filme (primeiramente em S. Paulo), com forró e música nordestina, a cargo dos autores da trilha sonora do filme. A distribuição é da Embrafilme.
Com Fernando Peixoto (Coronel), Rui Polanah, Emmanuel Cavalcanti (Mouro), Selma Buzzar (Maria do Rigoletto), Tuna Espinheira (capanga) e Waldemar Santana.
O filme é uma produção de Atalante Prod. Cinemat., com roteiro de Aloysio Raulino, Caetano Lagrasta e Luna Alkalay. A música é de Kátia de França.
LUNA ALKALAY – FANTASIAS DO REAL
Texto de apresentação de Mostra exibida na Cinemateca Brasileira em São Paulo de 21/03 a 24/03/2024
1974-2024. 50 anos das filmagens de Cristais de Sangue. Inacessível há mais de duas décadas – quando houve a última sessão pública do filme – a Mostra Luna Alkalay – Fantasias do Real irá celebrar o restauro e digitalização da obra através de uma retrospectiva que contempla a trajetória cinematográfica de Luna Alkalay. Na sessão do filme, será distribuído ao público o material gráfico/HQ criada por Rogério Duarte na ocasião do lançamento. A mostra, que será realizada de 21 a 24 de março na Cinemateca Brasileira, também reúne outros filmes importantes para a carreira da cineasta, com sessões comentadas, debates e exibição de trailers.
Nascida em Milão, Luna Alkalay se aproximou do cinema em 1968, quando acompanhou as filmagens de Um Clássico, Dois Em Casa, Nenhum Jogo Fora, de Djalma Limongi Batista, enquanto cursava filosofia na USP. Ao lado de Aloysio Raulino, entre 1970 e 1971, realizou os curtas Lacrimosa, Arrasta a Bandeira Colorida e Jardim Nova Bahia (1971) e, como atriz, participou de Pra Frente, Brasil (1970), de Plácido de Campos Jr. e Sem Saída (1971), de Agnaldo Siri Azevedo. Em 1972, realizou o curta Sangria – raríssimas vezes exibido – que conta com Fernando Peixoto, Selma Egrei, Emmanuel Cavalcanti e Jofre Soares no elenco.
Cristais de Sangue, seu primeiro longa-metragem, realizado na Chapada Diamantina, faz com que se aproxime da Bahia, onde mais tarde realizou curtas ao lado de André Luiz Oliveira, como Dia de Vaquejada (1976). No mesmo período, integrou a equipe de Roças (1975), de Rogério Corrêa, Trem Fantasma (1977), de Alain Fresnot, Tem Coca-Cola no Vatapá (1976), de Pedro Farkas e Rogério Corrêa, entre outros.
Após um período de autoexílio em Portugal, entre os anos 1980 e 2000, Luna produziu o Projeto Mensagem, de André Luiz Oliveira a partir da poesia de Fernando Pessoa, colaborou no roteiro de Louco Por Cinema (1994) e atuou como produtora em inúmeros projetos. O longa Estados Unidos do Brasil (2004-2005) marca sua volta à direção. Na obra, a questão da identidade pessoal e nacional é refletida através da entrevista de três jovens da periferia de São Paulo que trabalham como covers. Recentemente, lançou o livro Minha Mãe Inventada (2023) e finaliza dois novos longas-metragens, com estreia prevista para 2024.
A recuperação do Cristais de Sangue, meu primeiro longa-metragem, é a realização de um desejo, mas acima de tudo é a vontade de homenagear amigos queridos que participaram dessa aventura no interior da Bahia, em Mucugê, na Chapada Diamantina, em 1974. Ter de volta a deslumbrante fotografia do Aloysio Raulino, o som direto do Walter Rogério, a montagem do Plácido de Campos Jr, a assistência de direção de Tânia Savietto, as interpretações de Ruy Polanah, Fernando Peixoto, Emmanuel Cavalcanti e Tuna Espinheira, que já nos deixaram, possibilitará aos que assistirem à cópia digitalizada, confirmar, mais uma vez, o imenso talento dessa turma que o filme reuniu em um momento único de coragem e criatividade. Ver Salma Buzzar, Cláudia Mello, o povo e os coronéis da Chapada, nessa saga encantada de fantasia faz com que o esforço do Felipe Abramovictz seja recompensado. Ele foi o primeiro a acreditar e me convenceu. E agora na Cinemateca Brasileira estamos perto de realizar façanha, por décadas adiada, de trazer de volta à superfície os Cristais por tanto tempo enterrados.
Da Mostra Luna Alkalay, o que de mais significativo resulta é o registro de um momento quase impossível e, no entanto, retrato da imensa vontade de resistir, de encontrar a metáfora que expressasse o proibido, driblasse a censura, vencesse o silêncio. Filmes feitos entre amigos. A mostra poderia vir com esse subtítulo: um cinema feito entre amigos. Reunidos nos botecos, nas casas, vivíamos cinema todas as horas do dia, filmávamos com pontas de negativo, com câmeras emprestadas, com o que estivesse ao nosso alcance. Até com negativos fotográficos, como no Arrasta a Bandeira Colorida. A criatividade era sempre acolhida, respeitada, incentivada. As dificuldades de produção eram ultrapassadas pelo afeto, pela cumplicidade. E assim os filmes surgiam, os festivais os acolhiam, o laboratório era pago.
No Cristais de Sangue, o Walter Rogério gravou o som direto, coberto por mantas que “vedavam” o barulho do motor da Arriflex não blimpada. Lacrimosa foi feito numa tarde em que tínhamos algum negativo, um fusca, uma câmera e a genialidade do Aloysio Raulino. Esse era o modelo de produção. Essa era a matéria da nossa amizade. Participei da produção, dos roteiros, operei um Nagra, fui atriz, narradora, dubladora, diretora.
Finalmente, hoje, décadas mais tarde, meu amigo Felipe Abramovictz resgatou os filmes, tratou deles, e os devolveu às telas. A mostra leva meu nome, mas os filmes são assinados por todos nós, e pertencem a vocês que vão assisti-los. Espero você lá. LUNA ALKALAY


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