As Cortinas
Na cortina grande pintem a rabugenta
Pomba da paz do meu irmão Picasso. No fundo do palco
Estiquem a corda de aço e pendurem
Minhas meias-cortinas leves e esvoaçantes
Que devem atravessá-la como duas ondas de espuma para encobrir
A trabalhadora que distribui panfletos
E o Galileu que abjura.
Conforme a mudança das peças em cartaz, elas podem ser
De tecido áspero ou de seda,
De couro branco ou vermelho, etc.
Sò não as façam muito escuras, pois nelas
Vocês deverão projetar as legendas dos próximos
Acontecimentos, para assegurar a tensão e a
Expectativa correta. E por favor coloquem
A minha cortina a meia-altura, não bloqueie o palco.
Confortavelmente, o espectador deve
Ver os preparativos
Cuidadosos destinados a ele, uma lua de lata
Descendo, um telhado de madeira
Em instalação; não precisa mostrar muito
Mas mostrem alguma coisa. Ele poderá observar
Que nada disso é mágica mas
Trabalho, meus amigos.
Bertolt Brecht (trad. de Iná Camargo da Costa)
O filme inicia com uma tela preta e uma frase: “Antigamente, há muito tempo, nossos antigos quase acabaram”. Me parece muito sintomático que esse prelúdio do filme seja uma afirmação tão impactante, feita da forma que é: há uma imagem – digo, a ausência dela – e o som de uma língua falada cujo idioma, apesar de originário, não é o oficial de seu país – um outro tipo de ausência, podemos dizer. Nesse sentido, as imagens seguintes ganham mais força, pois se configuram sob um regime absolutamente contrário ao desta ausência: a encenação. A criação de “outro” mundo a partir dos registros feitos pela dupla de cineastas, Sueli e Isael Maxakali, parece refletir no agenciamento empreendido por todo trabalho deles – não só no cinema. É a realização sobre uma vontade de não apenas criar, mas reafirmar a existência desse outro mundo, ou dessas outras formas de vida. Numa determinada entrevista, a cineasta Maxakali fala sobre como essa distância, que foi propositadamente imposta aos povos indígenas, seus territórios e sua cosmovisão, se traduz em um cinema “diferente” daquele que se costuma ver, e portanto, ser feito: “Eles fazem filmes diferentes sobre nossa própria vida, nossos rituais, nós vemos de outro jeito e nós nos vemos de outro jeito.”1.
O caminho narrativo que o filme percorre me parece muito específico. No início, para nos apresentar à narrativa original pela qual nos conduzirá, se dá, pelas palavras da própria Sueli como: “as Yãmiyhex [no tempo ancestral] se transformaram em Yãmiyhex [mulheres-espírito] por conta da violência machista dos homens, não é? Que antigamente, quando os homens foram caçar e não queriam dividir a caça, as mulheres comeram sucuri, e aí, eles não gostaram e mataram uma das Ūhex (mulheres). O espírito da mandioca [Kotkuphi] flechou essa mulher e então, elas foram descontar, se vingar dos homens.”2. A partir desta encenação inicial, a condução que a dupla de cineastas propõe segue por dois tipos de cenas. As ritualísticas, nas quais os moradores de Aldeia Verde Maxakali (Minas Gerais) se empenham – coletivamente – em realizar um outro tipo de encenação, agora mais voltado para as crenças, sempre envolvendo as músicas, as danças e as batalhas entre os espíritos. As preparativas, cujas cenas são entregues de uma maneira muito próxima ao que Brecht coloca em seu poema citado no início do texto, “nada disso é mágica, é trabalho”, um tipo de “bastidor” do ritual em que acompanhamos a pesca e a fabricação de um cenário propício para que os rituais aconteçam. Portanto, é como se cada preparação (ou ensaio) servisse a uma ação (cena). Temos aqui, não apenas a criação de um outro mundo, o filme vai além, pois trata do registro de como esse mundo é criado.
Algo que me chama a atenção são as relações sobre o binarismo que o filme carrega consigo, seja pela relação de gênero entre homens e mulheres que é parte fundamental do filme, tanto na narrativa (como já foi mostrado), quanto pelas cenas divididas, ora como inteiramente masculinas, ora como inteiramente femininas, ao mesmo tempo em que existe a mistura, geralmente, dada pelo conflito entre os gêneros; pela relação das cenas que são as preparações e os ritos, nelas, existem também, uma relação com o tempo em que o ritual percorre, principalmente, a partir da variação entre o dia e a noite; a relação com os elementos da natureza, a água e a terra pelas quais a câmera passeia, e quem em determinado momento as imagens se misturam e o que vemos é a lama sobre os corpos dos praticantes; a alternância entre o registro que serve como prerrogativa para a ficcionalização, assim como é o que estreita os sentidos com a realidade pela documentação; a dupla agência do olhar entre os cineastas que expõe um modo de vida e seus ritos, e os espectadores que participam ativamente da descoberta de um ritual que existe há anos antes do próprio cinema.
Não à toa, a programação deste ciclo do Cineclube São Bernardo vislumbra a ideia de “alegoria” e “invenção”, conjuntas, como palavras que marcam certo momento histórico do cinema brasileiro e suas apostas para um certo horizonte. O jogo, entre o que é “criado” – no sentido da imagem – juntamente com o que é “narrado”, como se pudessem ser categorias díspares, segue um caminho nítido, tanto em Samba da Criação do Mundo (1979, dir. Vera de Figueiredo), filme inicial desse novo ciclo, quanto em Yãmĩyhex: As Mulheres-espírito (2020). São filmes, podemos dizer, que misturam a ideia de opacidade e transparência dentro de um único filme, às vezes em uma única cena. Isso configura o que talvez tenha de mais interessante nessas possibilidades de se fazer cinema empenhadas por cineastas que estão distantes do lugar de hegemonia representacional: o deslocamento do espectador de um lugar “comum”, para arriscar outro tipo de olhar a outros tipos de imagens.
As imagens têm características muito próprias. Seja pela nitidez – onde a luz e o brilho saltam à tela, não por uma falta de cuidado no processo de realização-finalização do filme. Acredito, que seja muito mais por uma intenção de revelar uma crueza dessas imagens, que buscam evidenciar uma certa urgência a este tipo de cinema, mostrando nas cenas os recursos possíveis que existiram para a execução da obra. Seja pela forma como a câmera se movimenta junto com os cineastas por todo o filme. Nós vemos o que eles veem, não pelos olhos, mas pelas mãos e pelas escolhas do ir vir que ambos resolvem capturar. De maneira que, em duas cenas, há uma exposição da Sueli, enquanto narradora e cinegrafista, sob a câmera durante as filmagens, tanto no momento do rito, quanto na preparação. Esse gesto remonta, mais uma vez, ao lugar do fazer cinematográfico, um “outro” tipo de fazer. Principalmente situado a partir das identidades que propõem esse cinema e dos territórios e tempos em que esse cinema é trabalhado. Em um primeiro momento, há um receio que os praticantes do ritual atinjam a câmera, num segundo, quando é dito como é difícil passar de tal cerca com uma câmera na mão. Nestes momentos é evidenciado que tanto a existência dessas pessoas quanto o fazer cinematográfico delas não é bem vindo. Felizmente a desobediência da dupla de cineastas Maxakali se faz presente e firme ao tipo de registro que ambos propõem, em produzir um outro tipo de sentido às imagens, e situá-las como pertencentes ao cinema. Mais uma vez uma tela preta, e as últimas palavras do filme: “Mais uma vez as Yãmiyhex entraram debaixo da terra e foram embora. Mas depois elas vão voltar de novo…”.
- CADA ŪHEX [MULHER, MENINA] TEM A YÃMIYHEX [MULHER-ESPÍRITO] QUE A ACOMPANHA. Realizado pela Júnia Torres com a Sueli Maxakali. Em: <https://verberenas.com/article/cada-uhex-mulher-menina-tem-a-yamiyhex-mulher-espirito-que-a-acompanha/> ↩︎
- Ibidem. ↩︎


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