Dirigido por Waldir Onofre, As Aventuras Amorosas de um Padeiro acompanha a crise conjugal de Rita (Maria do Rosário), uma mulher ingênua, que mais tarde, descobre que gostaria de viver sua sexualidade. Seu marido, um homem trabalhador e muito reprimido sexualmente (Ivan Seta), um artista de rua negro (Haroldo de Oliveira) e um padeiro português (Paulo César Pereio) que, ao se sentir traído se vê envolvido numa trama surreal de adultério, moralismo e justiça popular. O filme funde humor grotesco, crítica social e elementos do folclore urbano brasileiro, culminando num caos tragicômico onde o privado se transforma em espetáculo público. Lançado em 1975, não por acaso, o período mais repressivo da ditadura militar, a obra escapa da censura através do humor, mas sua crítica permanece, revelando as contradições de um país que se pretendia moderno mas mantinha estruturas profundamente racistas, machistas e homofóbicas.
Waldir Onofre, constrói aqui uma narrativa que opera em dois registros complementares. Por um lado, temos uma comédia escrachada, herdeira direta do nosso cancioneiro popular, especialmente as músicas de “corno”, com seu personagem arquetípico do marido traído e inconformado. A cena da descoberta da traição, com seu timing preciso e exagero caricatural, funciona como uma pequena obra-prima do gênero. Por outro lado, desenvolve-se uma crítica mordaz aos moralismos hipócritas, abordando com ironia temas ainda dolorosamente atuais: a exclusão de artistas negros, o machismo disfarçado de progressismo e a repressão sexual travestida de moralidade.
Na linguagem cinematográfica, Onofre demonstra toda sua maestria em transformar limitações orçamentárias em potência estética não ficando refém da narrativa. Na fotografia, típica dos filmes B da época, alterna entre planos amplos de cenas coletivas, filmadas com estética quase documental, e closes sufocantes nos momentos de drama íntimo, reforçando o contraste entre o público e o privado. A câmera brinca em alguns momentos de voyerismo, montagem acelerada e os cortes bruscos acentuam o tom de farsa no último terço do filme, enquanto a iluminação natural contribui para a atmosfera de realismo grotesco. Essas escolhas refletem a técnica que subverte as convenções narrativas e estéticas do cinema classico, combinando influências da pornochanchada, do teatro de revista e da sátira política. O clímax do filme materializa o que poderíamos chamar de estética do absurdo brasileiro: o adultério transformado em espetáculo popular, o crime que vira festa, a desgraça que se converte em riso coletivo. Sequências como a da multidão correndo pelas ruas ao som de sambas sobre traição. O filme também conta com frases icônicas como “vamos ver o adultério!”, “ é, amizade… a gente lambuza o selo. se colar, colou”, ou ainda ““Os maridos me assustam. São como o Pan, da mitologia grega: muitos chifres e pé de bode”, sintetizam essa visão de mundo onde o trágico e o cômico se fundem e não se pode separá-los. A umbanda ou candomblé como pano de fundo espiritual completa esse retrato do Brasil em estado bruto, onde instituições formais convivem com práticas culturais marginalizadas.
Quase cinco décadas depois, a obra permanece atual não apenas por sua qualidade técnica, mas por capturar com precisão antropológica uma essência nacional que resiste ao tempo. Sua mistura de crítica social e estética marginal consolida Onofre como um dos maiores observadores do absurdo nacional, mostrando que o excesso narrativo reflete o caos social e a leveza do humor esconde a profundidade da dor. Uma imagem que consegue ser ao mesmo tempo espelho e caricatura do Brasil.


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