“Compasso de Espera” é outro lançamento nacional no Recife. Filme de Antunes Filho, com Zózimo Bulbul e Renée de Vielmond.
Quando Antunes Filho, diretor de teatro, dirigiu seu primeiro filme – “Compasso de Espera” -, resolveu utilizar película preto-e-branco, contrariando as leis do mercado. Os exibidores só se interessam por filmes coloridos, alegando que o público não quer outra coisa. E quem desafia qualquer norma discriminatória sofre sanção: “Compasso de Espera”, produção de 1970, com exceção do Rio, permaneceu até hoje inédito. Explica melhor o próprio diretor:
“Se o filme foi rodado em preto-e-branco, e por causa disso entrou na dança da discriminação regida por alguns exibidores, não foi somente por exigências orçamentárias. Houve, sobretudo, uma opção determinada pelo tema e também, por que não, por razões estéticas. Não pretendia um quadro a óleo, mas uma xilogravura, uma obra de aspecto menos elitista, menos perfumada. Mais democrática, mais popular, mais condizente com as misérias do País subdesenvolvido. E isto sem levar em conta outro fator que me apraz, o clima mais dramático que determina”.
Acrescenta, o diretor Antunes Filho:
“Compasso de Espera” é um dos poucos filmes do terceiro mundo, não sei se o único, que tenta um levantamento sociológico do negro não escravo, vivendo numa sociedade industrial, tecnológica, capitalista, sofisticada. A sociedade de uma minoria que vive bem, segundo os padrões ocidentais, contra o pano de fundo de uma minoria que vive mal. “Compasso de Espera” revela a doença de uma geração ferida e insegura. Por isso o filme é tão falado. As personagens estão sempre no papel de quem se justifica, pede desculpas – e o que é pior, se enganando com palavras. Morrendo pela boca. A abundância de diálogos e monólogos é rigorosamente intencional. É uma deliberação característica do filme. Ao contrário do que alguns acharam ou poderiam achar, não é o erro de um homem de teatro que faz o seu primeiro filme. Sem falar de uma certa admiração que sempre tive por Godard, entendo que a verborragia é a qualidade negativa de uma geração em crise, que não podendo ou não conseguindo agir, deitava falação pelos botequins da vida.
“Nestas palavras – diz Tom Figueiredo – transparece um certo tom de desculpa. Absolutamente desnecessária. Se existe Godard no diálogo abundante, desligado da ação é porque suas personagens precisam falar de seus graves problemas. Da mesma maneira, se existe Fellini de “A Doce Vida” nas reuniões sociais e festas é porque o Mastroianni negro de Antunes Filho convive com a decadência e a intolerância, mantendo com a alta sociedade paulista, a contraditória relação de repulsa e atração, de ódio e dependência.
Um filme que deve ser visto, pois demonstra que preocupações de seis anos atrás foram capazes de gerar obras mais importantes do que a média da produção recente. E pelo que sabemos, em 1970, as condições de criação eram mais adversas do que as atuais”. Estreia hoje no Cinema de Arte AIP.
Texto de Fernando Spencer, publicado na edição 167 do Diário de Pernambuco, em 1978.


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