trecho do livro: “A crônica de cinema no Recife dos anos 50”, de Luciana Araújo
[…] Mas não é só de grandes fatos que se alimenta o interesse em torno de Canto. Episódios, anedotas e curiosidades acerca das filmagens também povoam as crônicas e os materiais de divulgação. Um dos “colaboradores” do filme, Mauro se propõe a contar fatos que se passam nos bastidores e que por certo irão interessar aos “curiosos do Cinema” (FM/M, 28/jan/53, p.11). No entanto, publica apenas um “Diário de Filmagem”, narrando um incidente com o ator Alfredo de Oliveira. Pronto para filmar a cena do internamento no hospício, Cavalcanti chama atenção do intérprete: “Você é o ator mais relaxado do mundo! Onde estão as suas alpercatas para esta cena?”. Oliveira pára um vendedor de roletes de cana, dá 10 cruzeiros em troca de suas velhas alpercatas, e os trabalhos continuam (FM/M, 30/jan/53, p.11).
Um texto de divulgação relata as filmagens em São José do Egito – cidade do interior do estado -, na Ilha de Itamaracá e na praia do Rio Doce, onde um velho morador, observando a cena da chegada do pau-de-arara, carregado de retirantes, observa que um filme com tanta miséria “só poderia ser obra de ‘propaganda comunista’” (DP, 21/dez/52, 2ª Seção, p.3).
Comunista ou não, o filme vale-se, como vimos, das facilidades proporcionadas pelo governo do estado. Uma das “Notas de Filmagem” agradece à Marinha, e especialmente ao Almirante Cox, por interromper os trabalhos de demolição do Forte do Buraco, para que pudessem ser filmadas cenas de amor entre os personagens Aurora e Raimundo (DP, 29/mar/53, 2ª Seção, p.3). Também não faltou apoio para a realização da sequência do xangô. Cavalcanti “reproduziu nos armazéns do Instituto do Açúcar e do Álcool, exatamente como no original, a sala de um xangô existente na Campina do Barreto [bairro do Recife]. Em colaboração com o Instituto Joaquim Nabuco, conseguiu levar todo o pessoal do xangô para o local de filmagem e, durante dois dias, conseguiu filmar cenas inéditas deste culto popular.” (DP, 24/maio/53, 2ª Seção, p.3).
Para as primeiras filmagens noturnas, na rua Vigário Tenório, o calçamento foi molhado pelo Corpo de Bombeiros. E, graças ao apoio da polícia, que isolou o quarteirão, foi possível filmar na rua de São José. É o que informa o release “O Canto do Mar em sua fase decisiva”, com fotos de Raimundo (Rui Saraiva) na igreja e abraçando o pai, e de um pescador em Rio Doce. A chegada de todo equipamento de som e iluminação permitiu rodar as cenas na Capela de São Francisco – num trabalho que durou 24 horas. Tudo isso porque, “adotando a técnica do semidocumentário, Cavalcanti tem filmado nas ruas e nos locais mais representativos do Recife”. Do centro da cidade, o cineasta e sua equipe seguem para a praia de Rio Doce, onde realizam as “cenas de interiores numa pequena bodega decorada especialmente para o filme” (DN, 14/mar/53, p.5).
Menos formal que os textos de divulgação, o cronista Duarte Neto escreve sobre o dia em que avistou um “aglomerado” perto da Igreja do Rosário [centro do Recife]. Primeiro pensou que fosse convocação para a guerra da Coreia, depois que fosse um incêndio, e assim por diante. Até que entendeu se tratar das filmagens de Canto. Duarte conta o que viu: “O cineasta Cavalcanti, tal a sua simplicidade e displicente elegância, mais parecia um paisano em viagem de turismo, pois, dentro da algazarra que faziam os seus auxiliares, era quem menos falava, gesticulava, providenciava, se bem, reconhecidamente, fosse a turbina que movimentava todas aquelas peças inanimadas.” […] “Provavelmente todo aquele fatigante trabalho daria, dentro do filme, uma cena de segundos. Um sentimento de amistosidade e de tolerância me aproximava do cineasta e desejei, intimamente, que O Canto do Mar o reabilitasse diante das nossas plateias. Com este pensamento deixei o local de filmagem.” (FM/V, 01/abr/53, p.6).
Ao contrário dos textos de divulgação, Duarte retrata um Cavalcanti vulnerável, cercado de auxiliares “inanimados”. O cineasta brasileiro de renome internacional dá lugar ao profissional esforçado que merece se “reabilitar” diante do público. Talvez não do público exatamente, mas diante do próprio cronista. Porque quando Duarte fala em reabilitação é certo que tem em mente o seu desagrado em relação ao trabalho de Cavalcanti na Vera Cruz e aos filmes do diretor exibidos nos últimos meses no circuito comercial.


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