Depois de dois anos de programação regular, um desafio se impõe para o Cineclube São Bernardo. Somam-se perguntas que nos perseguem desde o início: como dar conta das lacunas, dos pontos cegos e das ausências que o nosso cinema esconde? Como se debruçar sobre o novo, sem se acomodar no já visto? Uma das estratégias possíveis é mirar o específico, em busca do que não se vê no olhar generalizante, para ali descobrir novas imagens.
O CSB, portanto, retoma sua programação em 2026 voltando-se para uma seleção de filmes realizados por cineastas negros entre os anos de 1970 e 1980 no Brasil. O recorte é sugestivo: os anos 1970, com todos os desafios de censura enfrentados pela classe artística, também foram um período de desenvolvimento cinematográfico no Brasil, em que os filmes passaram por uma complexificação no que tange ao tratamento da questão étnico-racial no país. Se o regime militar sonhava com o mito da democracia racial, imagens como as de “Compasso de Espera” (dir. de Antunes Filho, 1973) ou “As Aventuras Amorosas de Um Padeiro” (dir. de Waldir Onofre, 1975) propunham outras leituras da realidade social do país. É claro, o debate já estava em voga no cinema e na sociedade brasileira há anos – e realizadores negros como Cajado Filho e Haroldo Costa já haviam dirigido seus longas. Mas, a partir dos anos 1970, são realizados mais filmes por cineastas negros do que jamais se fizera anteriormente. Tais filmes, ainda escassos, escancaram a ausência: contam-se com poucas mãos os filmes – e, particularmente, os longas-metragens – realizados por pessoas negras no Brasil no século XX. Mas os filmes existem e, no decorrer de quatro sessões, entre março e abril de 2026, o CSB exibe e debate alguns deles na Cinemateca de Curitiba.
Nos últimos dois anos, por conta de políticas públicas municipais efetivadas por meio de editais com recursos originados do Governo Federal (nomeadamente a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc), pudemos garantir uma estrutura e remuneração mínimas para as exibições e ações deste cineclube. Mas as políticas baseadas no falho modelo de editais são sazonais e intermitentes. A ausência de políticas públicas contínuas voltadas para a criação e manutenção de cineclubes nos coloca sob o desafio de retornar para um terceiro ano sem perspectivas claras de continuidade. Esse ciclo surge, portanto, a partir da proposta de contrapartida social do projeto “Sonho Ser Imagem”, cujo principal objeto foi a realização de um filme produzido pelas produtoras Filmes do Horizonte e O Quadro e dirigido por um de nossos curadores, Gabriel Borges. É com os recursos desse projeto e a simbologia de desenvolver um ciclo de exibições que aborde a construção histórica de um cinema negro brasileiro de forma análoga à realização de um filme contemporâneo capitaneado por pessoas negras que apontamos para o passado, mirando o futuro.
Sessão 01 – 04/03/2026 – Um é Pouco, Dois é Bom
Direção: Odilon Lopez
Ano: 1970
Duração: 94 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: Um conto é pouco, dois é que é bom! Neste díptico portoalegrense dirigido por Odilon Lopez, mergulhamos na vida urbana da capital gaúcha. De um lado, a tragédia do casal Jorge (Carlos Carvalho) e Maria (Araci Esteves) que vê sua vida desmoronar diante do desemprego e a gravidez de seu primeiro filho. De outro, as desventuras de Magrão (Francisco Silva) e Crioulo (Odilon Lopez), ex-prisioneiros que, entre pequenos golpes, acabam metidos em uma grande furada com uma ricaça da região. Tudo costurado com humor e um interesse particular pela sátira do cotidiano e da marginalização na cidade.
Sessão 02 – 11/03/2026 – Na Boca do Mundo
Direção: Antônio Pitanga
Ano: 1978
Duração: 100 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Em uma cidade litorânea do Rio de Janeiro, Antônio (Pitanga) vive os dias trabalhando em um posto de gasolina, conforme junta dinheiro para ir embora com sua namorada, Terezinha (Sibele Rúbia). Quando a grã-fina Clarisse (Norma Bengell) estaciona seu conversível no posto para abastecer, a história de Antônio muda para sempre. Desejo, morte e traição se entrelaçam neste melodrama paradisíaco, primeira direção de Antônio Pitanga.
Sessão 03 – 18/03/2026 – A Deusa Negra
Direção: Ola Balogun
Ano: 1978
Duração: 95 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: Babatunde (Zózimo Bulbul) vem da Nigéria em busca de sua família no Brasil. O africano procura por uma imagem idêntica àquela que seu pai lhe deixou, acompanhada da indicação de que a outra metade estaria com seus parentes brasileiros. Em sua jornada pelo país, Babatunde atravessa o Rio de Janeiro e Salvador, do centro à favela, do subúrbio ao terreiro, encontrando a comunidade negra que permaneceu no Brasil e as memórias preservadas por ela. Projeto sui generis, fruto de um diálogo com a diáspora africana, o filme é dirigido pelo nigeriano Ola Balogun e reúne um grande elenco com alguns dos principais atores negros brasileiros da época.
Sessão 04 – 01/04/2026 – Sessão de curtas
Classificação indicativa da sessão: 16 anos.
Alma no Olho
Direção: Zózimo Bulbul
Ano: 1973
Duração: 12 minutos
Sinopse: A partir de retalhos de película não utilizados em Compasso de Espera (1973), Zózimo Bulbul constrói uma performance que reflete sobre a experiência negra brasileira, entre memória, opressão e afirmação.
Aniceto do Império em: Dia de Alforria…?
Direção: Zózimo Bulbul
Ano: 1980
Duração: 11 minutos
Sinopse: O filme acompanha Aniceto do Império, um dos fundadores da escola de samba Império Serrano, em registros de seu cotidiano, histórias de vida e vínculos com o samba e suas raízes.
Denúncia Vazia
Direção: Adélia Sampaio
Ano: 1979
Duração: 8 minutos
Sinopse: Um casal de idosos vive tranquilamente em seu apartamento até que recebe uma ordem de despejo. O curta observa o impacto da decisão judicial sobre a vida cotidiana.
Adulto Não Brinca
Direção: Adélia Sampaio
Ano: 1980
Duração: 8 minutos
Sinopse: Após serem flagradas colocando um corpo em uma encruzilhada, algumas crianças são presas. A investigação revela não apenas o destino do cadáver, mas também o sentido da ação.


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