É óbvio o interesse de Carlos Diegues pela cultura negra e diaspórica, mas em Quilombo (1984) o diretor trabalha o filme a partir de outras proposições, diferente do que até então já fora visto na sua carreira. Diferente, pois é uma das maiores produções brasileiras, não só em sentido orçamentário, mas enquanto uma ambiciosa proposta artística: como reimaginar Quilombo dos Palmares em 1984?
É um tema que está na própria escrita da nossa história, mas também presente de forma latente na cultura e na música; e ao mesmo tempo um grande evento resguardado no território do esquecimento, marginalizado no imaginário sociocultural. Essa lacuna do imaginário cultural nos canais oficiais é uma evidência da nossa fraca relação com a própria história, mas é o motor que Diegues encontra para realizar Quilombo: um filme que é historicamente uma hipótese, uma possibilidade e um futuro do pretérito do indicativo (o que poderia ser). Nesse sentido, é um debate que ultrapassa a discussão historiográfica, e o cinema é um agente histórico que coloca em debate a formação da nação brasileira, dando louros aos seus verdadeiros heróis, os não oficiais.
Uma visão sobre o quilombo que é desafiadora. O desafio envolve um movimento duplo: por um lado, Carlos Diegues consultou uma gama de especialistas, historiadores, e inclusive a dupla de intelectuais brasileiras negras de maior reconhecimento nos estudos do tema, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, para tornar palpável a história do Quilombo dos Palmares; mas em um segundo movimento, não há uma preocupação tão focada na história oficial, dos vencedores, não há uma busca por um filme fidedigno ipsis litteris dos eventos sucessivamente. Diegues busca justamente, a partir dessa gama de conhecimentos humanos, trabalhar de certa forma um quilombo anacrônico e atemporal. Entre as brechas, entre 1680 e 1980. E assim por diante.
Um épico esquecido — tal qual o evento de resistência que o Quilombo dos Palmares representa. Como retratar um evento de tamanha magnitude e que ainda assim está à margem do imaginário histórico e cultural? As imagens do filme representam o quilombo como a imaginação de uma nação democrática possível, uma vez que a cultura afro-brasileira foi um ponto nodal entre diversas demandas sociais barradas pela ditadura militar. Enquanto os épicos clássicos costumam acompanhar a jornada de um personagem heroico, Diegues se propõe a digressões narrativas. Paralelamente à trama principal existem pequenos momentos, fragmentos de história, esquetes, que vão compondo um mosaico rico de personagens, elementos religiosos, momentos cômicos com participação de grandes artistas, como Grande Otelo. É um filme que se deixa atravessar por essas possibilidades de suspensão dos códigos estabelecidos. Por isso há um sentido de continuidade temporal e política.
Quilombo é um movimento de tentativa de recriar e atualizar em seu tempo uma mitologia brasileira, com toda a sua potência e possibilidade. Seu interesse é em recriar e reorganizar, a partir de um ponto de veracidade histórica, um universo alternativo na tela, entre o passado, presente e o futuro. Longe de passar por um didatismo de denúncias óbvias à la Cinema Novo, mas perto da tentativa da materialização de sons e imagens em movimento de Quilombo, para que sua história seja vazão catalisadora através de suas próprias fantasias e utopias. Tirando o realizador desse lugar de dever didático de transmissão de suas ideias goela abaixo do público, e deixando que o próprio público se envolva subjetivamente, criando suas conexões com o filme e com um imaginário apagado da nossa concepção de país. É no cinema que se dá a concretude e contundência aos mitos fundadores, que saem da anedota e ganham corpo de luz.
Digo de novo, estamos falando de um Épico, que no contexto do cinema nacional é um tanto raro (e os que têm, são insuficientes), de um drama histórico que se permite dar vazão para a poética e mística da força que o quilombo representa. Uma ficção de uma possibilidade histórica. E aí está sua poesia. Uma promessa de futuro. Daí vem toda sua gama de poder simbólico latente até hoje.


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