O documentário acompanha a ocupação do Assentamento Annoni e revela a construção lenta de um mundo. As barracas de lona, o fogo aceso nas latas, as crianças brincando entre a poeira, tudo compõe uma paisagem em que a precariedade se mistura à esperança. O trabalho coletivo, as reuniões políticas, o aprendizado da organização, tudo ali é um gesto de construção de consciência. Marx escreveu que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras, o que importa é transformá-lo”, em “Terra para Rose”, o povo encena essa transformação, não como teoria, mas como prática diária e ação como o lugar onde a política nasce. No acampamento, a ação é o próprio ato de existir. As pessoas falam, decidem, se organizam, e a vida comum vai se tornando o espaço público mais essencial que há. O filme revela esse instante em que a palavra volta a ser coisa viva, instrumento de sobrevivência e de dignidade. Entre uma reunião e outra, o que se funda é um novo modo de estar no mundo do Brasil que prometia reforma agrária.
A comunhão está em cada quadro do filme. A partilha do pão, a solidariedade entre mulheres, o cuidado com as crianças, a construção coletiva das casas e da plantação são pequenas revoluções. São gestos que contradizem a lógica do latifúndio, a lógica da escassez e do medo. Tetê Moraes faz da câmera um instrumento de partilha: ela olha junto, caminha junto, ouve junto. O entrave é ter a esperança no Brasil sempre vigiada. O filme mostra o cerco policial, os tratores prontos para destruir o que foi erguido a tanto custo. A repressão atravessa o campo como um vento frio. A violência do Estado se revela no rosto dos soldados, nas balas de borracha, na tensão dos corpos, no medo de perder mais uma vez o que ainda não pôde ser conquistado. “Terra para Rose” é o retrato da contradição: o povo constrói o futuro e o Estado insiste em reencenar o passado. A reforma agrária, que nos anos 1980 parecia um horizonte possível, segue hoje como promessa adiada. A desigualdade fundiária é a mesma, e os assentamentos,resistem com a força da memória, que também é responsabilidade de quem vive nos centros urbanos. O olhar de Tetê não é piedoso, mas ético. Ela não reduz os personagens à condição de vítimas, e sim de sujeitos inventando a própria história. O documentário é um gesto também de ternura. É a lembrança de que, antes de qualquer ideologia, há a necessidade elementar de viver com dignidade.
Rose, a mulher cuja ausência desenrola sobre a narrativa, torna-se o centro invisível da história. Ela é símbolo das vidas que se perderam na caminhada pela terra. Sua morte é uma semente lançada. A lembrança de Rose paira sobre o acampamento como um chamado, e cada rosto filmado pela diretora parece carregar a mesma pergunta: “Quantas morreram para que o chão voltasse a ser chão?” O filme de Tetê Moraes prova que o tempo da terra é o tempo da espera, e que sem o direito a terra não há futuro possível a ser sonhado.


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