“Alegoria” e “invenção” são termos muito associados à história do cinema moderno brasileiro. Aqui, essas palavras servem como disparadores para a reunião de filmes que partem de uma realidade brasileira, inesgotável, e inventam novos mundos e mitos a partir da experimentação, da fantasia e do místico.
Se no primeiro ciclo deste ano partimos do real para pensar a forma com que o cinema brasileiro lida com uma ideia de país, aqui esse real é encantado pelos olhos do espírito, tornando-se metafísica, dança, cor e ritual. “Samba da Criação do Mundo” abre alas para esse novo momento, a partir da música e do mito da criação Nagô. Com os signos das religiões afro-brasileiras e da comédia, os contornos da ficção voltam à tona a partir de “As Aventuras Amorosas de Um Padeiro”. “Yãmĩyhex, as Mulheres-Espírito” nos coloca próximos ao cinema-ritual de encenação e cores na Aldeia Verde Maxakali, em Minas Gerais, habitada e atravessada pelos ancestrais. Já nas exuberantes paisagens históricas da Chapada Diamantina, “Cristais de Sangue” nos apresenta um conto inebriante de família e posse. O caminho segue pela fantasia rumo ao cinema popular em uma obra pouco vista de um dos cineastas mais conhecidos de nosso cinema: “A Terceira Margem do Rio”, dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado na literatura de Guimarães Rosa.
Nos horizontes e curvas das paisagens, na multiplicidade de costumes e na aparição de entidades e espíritos estão contidas imagens de invenção, em busca de uma brasilidade e de novos e desafiadores ares para o cinema brasileiro. O Cineclube São Bernardo ocupa quinzenalmente, nas quartas-feiras às 19h, a Cinemateca de Curitiba. Tenham ótimas sessões.
Sessão 06 – 09/07/2025 – Samba da Criação do Mundo
Direção: Vera de Figueiredo
Ano: 1978
Duração: 84 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: No compasso do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis, a criação do mundo de acordo com o mito da tradição Nagô é narrada pela música e pela contação de história das princesas Iá Kalá, Ia Detá e Ia Nassô. Neste musical experimental de Vera de Figueiredo, orixás e divindades do Candomblé habitam as ruas e as matas do Rio de Janeiro, canalizando a energia festiva do carnaval brasileiro em um cinema vivo e colorido, que pulsa nas batidas dos surdos.
Sessão 07 – 23/07/2025 – As Aventuras Amorosas de Um Padeiro
Direção: Waldyr Onofre
Ano: 1975
Duração: 109 min.
Classificação indicativa: 16 anos.
Sinopse: Rita (Maria do Rosário) está desiludida com o casamento. Mário (Ivan Setta), seu marido, é um chato. Estimulada por suas amigas, Rita começa a viver uma vida mais livre e um dia aceita as investidas do padeiro português do bairro, Marques (Paulo César Pereio) para uma aventura de um dia. O padeiro torna-se obcecado por ela, mas Rita tem outros interesses e apaixona-se por Saul (Haroldo de Oliveira), um homem negro, pintor, poeta, malandro da praia carioca. O quadrado amoroso está posto e o cenário pronto para uma típica comédia de costumes à brasileira, aqui conduzida com uma energia pulsante pelo cineasta-ator Waldyr Onofre, que com esse filme viria a se tornar conhecido como um pioneiro do cinema negro brasileiro.
Sessão 08 – 06/08/2025 – Yãmĩyhex, as mulheres-espírito
Direção: Sueli Maxakali e Isael Maxakali
Ano: 2019
Duração: 76 minutos
Classificação indicativa: Livre
Sinopse: Depois de um tempo, as Yãmĩyhex (mulheres-espírito) se preparam para ir embora da Aldeia Verde Maxakali, em Minas Gerais. Todos da aldeia se envolvem nos preparativos de um grande ritual, no qual a permanência da ancestralidade é registrada por olhares atentos e, também, profundamente envolvidos. Entre o visível e o invisível, o cinema e o mito, os espíritos ancestrais marcam sua passagem, neste longa-metragem realizado por Sueli e Isael Maxakali em que, por alguns instantes, filme e ritual se tornam um só.
Sessão 09 – 03/09/2025 – Cristais de Sangue
Direção: Luna Alkalay
Ano: 1975
Duração: 80
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Cores, adereços, arquétipos, fantasia. Luna Alkalay ficciona um território, inventa uma lenda, e em plena ditadura filma na Chapada Diamantina uma história de garimpo, diamantes e coronéis. Ruy (Rui Polanah) vem de Moçambique à procura de seu pai, Sunzé, e é o primeiro motor dessa trama. Ele ouve rumores e histórias de fantasmas na região. Em sua busca, encontra Maria do Rigoletto (Salma Buzzar) a filha de um poderoso coronel presa em uma casa mal-assombrada. Sunzé parece estar envolvido na guerra pelo poder na região. O encontro entre os personagens desencadeia uma jornada de ares surreais, mas atenta a cada um de seus espaços.
Sessão 10 – 17/09/2025 – A Terceira Margem do Rio
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1993
Duração: 99 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: Certo dia, o pai de Liojorge deixa a família, desaparecendo em seu barco na curva do rio. Quando crescido, Liojorge (Ilya São Paulo) se casa com Alva (Sônia Saurin), com quem tem uma filha, Nhinhinha (Barbara Brant). Tranquila em sua mesmice, a família se espanta ao descobrir que a menina é milagreira. Nelson Pereira dos Santos traduz às telas cinco contos de Guimarães Rosa, fundidos em uma extensa narrativa fantástica que parte de um confim interior de Brasil e migra até os arredores de Brasília.



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