Trecho de reportagem/entrevista de Miriam Alencar a respeito de Tarcísio Meira publicada originalmente . Quando foi no Jornal do Brasil em 1970
Está em exibição no Rio, Quelé do Pajeú, filme dirigido por Anselmo Duarte, baseado numa história de Lima Barreto. É uma produção ambiciosa e cara, em cores, primeira em 70mm no cinema brasileiro. O personagem principal é Quelé, um vaqueiro rústico, simples e puro, mas ao mesmo tempo com um grande sentido de justiça, interpretado por Tarcísio Meira. Mas este não é o primeiro filme de Tarcísio.
– O primeiro filme em que apareci, faz alguns anos, foi Casinha Pequenina, de Mazzaropi. Depois fiz Máscara da Traição, um policial de Roberto Pires e agora sou Quelé do Pajeú, um grande personagem.
– É engraçada a história do meu papel. Uma vez representei, na televisão, o papel de um nordestino sofrido, vivido, uma figura humana muito bonita. Anselmo Duarte viu esse trabalho e me disse que tinha gostado muito. Quando foi fazer Quelé do Pajeú, Anselmo lembrou-se de mim, e convidou-me para o papel que aceitei imediatamente, sentindo ali uma grande oportunidade em minha carreira
– Quelé pode ser definido como puro, bom, provavelmente burro, embora o filme não diga se ele é ou não, ignorante, agreste, primitivo na forma de pensar e de agir. Sua lei é olho por olho, dente por dente. Ele é incapaz de ver por que as pessoas erram, o que determinou seu erro. Ele é objetivo: se errou, tem de pagar. Eu estou certo, então não tenho de pagar. Apesar disso, ele é humano. E é interessante ver um personagem assim, porque é raro encontrar uma pessoa primitiva a esse ponto, sem ser desumano. Dentro de sua humildade, Quelé não sabe ver os determinados valores e porque tais fatos acarretam esses valores. Sua vingança está dentro do seu espírito de justiça. É um personagem totalmente diferente dos que já fiz.
– Em cinema, as coisas mudam muito, demais. O brasileiro, mais do que os outros, está sempre querendo melhorar, correndo atrás de tudo, instável. Falta-nos uma tradição a que nos apegar. Faltam-nos os grandes mestres: nós ainda estamos criando. E isso é ótimo, pois sempre estamos criando coisas novas. Não há francês, italiano ou americano que não quereria estar vivendo este momento do cinema brasileiro. O momento de ansiedade, de procura por alguma coisa, por uma maneira característica de dizer as coisas. Sinto essa procura e acho bom. Quelé do Pajeú, dentro disso tudo, é também uma procura da linguagem do cinema brasileiro. É muito comercial. Mas sem deixar de agradar o público, tem momentos de grande beleza plástica, de lirismo, de cinema puro. A história é bem contada, o que é difícil. Se um diretor consegue contar bem uma história, pra mim é um grande diretor.


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