Real, diretamente real. Debates sobre o realismo marcam a história e a identificação do público com o cinema brasileiro. Começamos a invenção do Brasil por aí. Olhar para a realidade do país a partir da criação de narrativas calcadas em espaços reais, a partir do registro direto no documentário ou ainda tendo como base a reimaginação de um passado, podendo novamente fabular sobre o real.
O real ganha muitas formas no cinema, e é a partir dessa chave polissêmica que o primeiro ciclo do ano 2 do Cineclube São Bernardo se dedica a filmes que desdobram o real em imagens. Começamos com Ôrí (dir.: Raquel Gerber, 1989) que, entre a pesquisa, o documentário e o ensaio, traça um itinerário entre Brasil e África, demarcando a presença histórica do quilombo na constituição deste país. Passamos por O Canto do Mar (dir.: Alberto Cavalcanti, 1953), ficção situada no litoral de Pernambuco, destacando em um melodrama a dura vida de uma família após sair do sertão. Enquanto a família deixava o sertão no longa cinquentista de Cavalcanti, vamos à ele e à Zona da Mata pernambucana em Quelé do Pajeú (1969), faroeste brasileiro dirigido por Anselmo Duarte, que entra no universo de áridos homens entre o realismo e os códigos do gênero.
A última parte do ciclo se volta à cidade com Compasso de Espera (dir.: Antunes Filho, 1973), longa-metragem protagonizado por Zózimo Bulbul, que narra a história de um poeta negro em meio às suas paixões e angústias na São Paulo do final dos anos 60. O ciclo se encerra com Um Céu de Estrelas (dir.: Tata Amaral, 1996), filme imerso no cotidiano pacato de uma cabeleireira que, de repente, tem sua vida transformada em um cenário de desejo e violência.
Câmeras na mão, na rua, no sertão ou no mar, a realidade é vista, contraposta e torcida, o real ganha muitas dimensões. O que realmente é este país? Nos vemos na sala da Cinemateca. Tenham uma ótima sessão.
Texto da curadoria
Sessão 01 – 02/04/2025 – Ôrí
Direção: Raquel Gerber
Ano: 1989
Duração: 93 min
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: Produzido ao longo de 11 anos entre a África Ocidental e o Brasil, sobre um panorama de documento – a história dos Movimentos Negros no Brasil dos anos 70 e 80 –, ÔRÍ narra a história de militantes negros e da historiadora Beatriz Nascimento, que busca sua identidade através da pesquisa da história dos “Quilombos” como estabelecimentos guerreiros e de resistência cultural, da África do século XV ao Brasil do século XX.
Sessão 02 – 16/04/2025 – O Canto do Mar
Direção: Alberto Cavalcanti
Ano: 1953
Duração: 84 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: Não chove. Uma família de sertanejos, tentando escapar da seca no interior de Pernambuco, se desloca para o litoral. A mãe é uma lavadeira que se esforça para manter a família unida, o pai enlouqueceu depois de um acidente com o mastro de uma embarcação, e os filhos, Raimundo e Ponina, planejam para si uma vida melhor, cada um à sua maneira. No segundo filme de Alberto Cavalcanti após o seu retorno ao Brasil nos anos 1950, ele realiza um melodrama que coloca em evidência o tema da miséria no cinema brasileiro.
Sessão 03 – 28/05/2025 – Quelé do Pajeú
Direção: Anselmo Duarte
Ano: 1969
Duração: 115 min.
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Clemente, ou melhor, Quelemente, ou para a lenda: “Quelé” (Tarcísio Meira) parte em uma jornada de vingança. Em Pajeú das Flores, sua irmã havia sido violentada por um desconhecido viajante. Quelé se embrenha pelo sertão, as matas e brejos de Pernambuco em busca do perpetrador de quem sua irmã lembra apenas de dois detalhes: uma cicatriz no rosto e a falta de um dedo. Para além do realismo, navegando pelas aventuras de Quelé e os códigos do gênero, o já experiente ator e diretor Anselmo Duarte conduz, nesse filme quase perdido, um atípico verde nordestern.
Sessão 04 – 04/06/2025 – Compasso de Espera
Direção: Antunes Filho
Ano: 1973
Duração: 98 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: Jorge (Zózimo Bulbul) é um proeminente poeta negro. Embora reconhecido, ele atravessa os círculos de intelectualidade convivendo com toda a forma de racismo – algumas veladas, outras explícitas. Em meio ao contato com o movimento negro e seus pares, Jorge mantém um relacionamento com Ema (Elida Palmer), uma mulher branca mais velha, até conhecer e se apaixonar por Cristina (Renée de Vielmond), uma jovem proveniente da alta sociedade. Zózimo Bulbul interpreta com maestria as angústias dessa nova paixão, dilacerada por uma sociedade de preconceitos raciais levada às telas pelo diretor de teatro Antunes Filho.
Sessão 05 – 25/06/2025 – Um Céu de Estrelas
Direção: Tata Amaral
Ano: 1996
Duração: 80 min
Classificação indicativa: 16 anos
Sinopse: A cabeleireira Dalva (Leona Cavalli) vai viajar. Ela venceu um concurso e irá para Miami, uma oportunidade para que ela se livre do seu cotidiano difícil. Ela ainda não contou para sua mãe, com quem mora. Subitamente, neste último dia de Brasil, enquanto Dalva arruma as malas, Vítor (Paulo Vespúcio Garcia), seu ex-noivo, toca a campainha. A partir daí, em seu primeiro longa, Tata Amaral aproxima a câmera de seus personagens e os conduz por um enclausurado jogo de poder, em uma profunda escalada de desejo e violência.



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