Elegância do encontro humano, por Daniel Schenker Wajnberg

Eduardo Coutinho lança ‘Babilônia 2000’, filmado no último dia de 1999 – Tribuna da Imprensa (RJ), Quinta-feira, 4 de janeiro de 2001

Babilônia 2000 é um filme sobre equipes de cinema que vão ao morro filmar o último dia do ano. O processo se revela mais importante do que o resultado final. Não é à toa que falam que documentários não dizem a verdade e sim mostram a verdade da filmagem. Mesmo se você pegar o filme mais etnográfico, o que aparece é o encontro de dois grupos sociais”, afirma o cineasta Eduardo Coutinho, ressaltando que “Babilônia 2000” – documentário que estréia amanhã nos cinemas produzido pelo Cecip (Centro de Criação de Imagem Popular), pela Videofilmes, por Donald K. Ranvaud (que conheceu o diretor no Festival de Salsomaggiore Terme, na Itália, na década de 80) e pelo próprio Coutinho -, trata mesmo da elegância do encontro humano. Encontro, no caso, entre as quatro equipes de filmagem e os moradores das favelas Chapéu Mangueira e Babilônia.

Ética e vísceras

De um lado, os diretores de filmagem (Eduardo Coutinho, Daniel Coutinho, Consuelo Lins e Geraldo Pereira) e câmeras (Jacques Cheuiche, Sergio Sbragia, Ricardo Mehedff, José Rafael Mamigonian e Cristiana Grumbach), também considerados por Eduardo Coutinho como autores do filme; do outro, entre muitos, Fátima, Jéssica, Augustinha, Regina, Jorge, Djanira, Cida, Marcos, Carolina, Paulo Sérgio, Sandra, Luiz Carlos, Bárbara, Shirley, Roseli, Josimar, People e Conceição (e mais Benedita da Silva). Para estabelecer a linha de relação entre ambas as partes foi necessário seguir algumas regras éticas. “É preciso estar aberto às pessoas, não julgar, não se sentir superior e tentar se colocar no lugar delas até onde isto for possível. Para tanto, você precisa fazer de si um vazio para ser preenchido pelos outros. Não significa vazio e passivo, mas no sentido de poder receber coisas dos outros. Se deixar alimentar pelo outro. Trata-se de uma troca de igualdade. Considero fundamental ter um respeito intenso pelo que a pessoa é e pelo que ela pretende ser”, desenvolve o cineasta de outros documentários renomados, como “Cabra marcado para morrer” e “Santo Forte“.

A rigor, os depoimentos que batem na tela pertencem mais a personagens do que a pessoas. Em primeiro lugar por causa da própria presença da câmera – e Eduardo Coutinho procura sempre evidenciar tanto para os entrevistados quanto para o próprio público que está ali filmando um documentário. A câmera não é intrusiva mas provoca uma mudança qualitativa na fala das pessoas. Essa mudança não se traduz necessariamente em artificialidade. Muitas vezes, o contrário acontece. Além disso, há a edição. “À medida que os depoimentos vão sendo editados, as pessoas se transformam em personagens. O personagem é a pessoa concentrada no que ela tem de melhor”, observa. Ciente de que a autenticidade absoluta não existe, Eduardo Coutinho busca falas verdadeiras, destituídas de efeitos. “Meu sonho é fazer um filme sem pesquisa nenhuma. Gostaria que tudo fosse novidade. De repente, você se depara com um momento maravilhoso, de vísceras. Provavelmente se tentar recuperar depois não vai ser bom porque pode surgir uma consciência do ator, uma vontade de agradar mais”, diz.

Negociação de desejos

Num sentido diverso, consciência é o que não falta aos moradores do Chapéu Mangueira e da Babilônia. Questionados sobre as expectativas para a passagem de 1999 para 2000, não hesitam em afirmar que a mudança será apenas numérica. No mais, nada deverá se alterar, o Brasil continuará igual ou pior – dizem. “Filmei ‘Santa Marta – duas semanas no morro’ em 1986 e as pessoas não reclamavam tanto. Hoje a descrença em relação ao País é muito maior. Consciência das coisas pode trazer infelicidade mas se torna interessante caso se difunda e atinja massa crítica. Todos negociam para sobreviver. Sempre existe conflito mas o homem negocia – nem que seja com a própria consciência. Os filmes que faço são de negociação. Eu negocio o meu desejo com o de outras pessoas”, declara.

A lucidez da maior parte dos depoimentos vem acompanhada de surpreendentes referências cinematográficas e musicais nem sempre contemporâneas – basta reparar nas citações a filmes (“Orfeu negro”, “A bela e a fera”), personalidades (Charles Chaplin, Sidney Poitier, Janis Joplin, Roberto Carlos, Wanderlea e Augusto Boal) e grupos (Beatles). “É excelente quando as pessoas trazem metareferências que não são intelectuais, referências de mídia do tempo em que eram mais jovens. Interessante reparar como há poucas lembranças relativas à televisão, que domina o universo popular atual. Mas ela aparece de uma outra forma. Afinal, boa parte da população brasileira já foi filmada ou já assistiu a uma filmagem. O povo tem uma relação com a câmera. As pessoas procuram passar recados através da TV – é a informalidade do brasileiro. Neste nível, a televisão está presente durante todo o tempo”, reflete. “Babilônia 2000” abrange desde a chegada das equipes de filmagem ao morro, na manhã de 31 de dezembro de 1999, até pouco depois da passagem do ano. Durante as mais de 12 horas de permanência (reduzidas na tela para econômicos 80 minutos de projeção), Eduardo Coutinho não esconde do público a natureza de seu projeto. Percorrer o Chapéu Mangueira e a Babilônia flagrando encontros – alguns programados, outros improvisados – marcados pela firmeza ética e por um sentimento inato de irmandade.

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