O FOLCLORE DE IPANEMA EM FILME DE AMOR E HUMOR
escrito por Susana Schild e publicado no Caderno B do Jornal do Brasil em 06/05/83
Depois de um ano de trabalho no papel de Waldomiro Penna, o popular repórter do seriado Plantão de Polícia, da rede Globo, Hugo Carvana sentiu necessidade de realizar um trabalho criativo na área do cinema. Para o ator de mais de 70 filmes, diretor e co-roteirista de dois – Vai Trabalhar Vagabundo e Se Segura Malandro – as 12 horas diárias de gravação eram insuficientes para extravasar toda a sua energia criativa. Então, convocou a tchiurma – a mulher, Marta Alencar, a atriz Denise Bandeira (com quem trabalhou na série de televisão e em Se Segura Malandro), Armando Costa (co-roteirista de dois dos seus filmes) e Euclydes Marinho também roteirista. O quinteto pensou um roteiro de cinema, cujo resultado, Bar Esperança, O Último que Fecha, estreou esta semana nos cinemas do Rio.
O trabalho teve início no começo dos anos 80: anistia, volta dos exilados, reencontro de amigos. Durante as reuniões, papeis e ideias eram colocados de lado; discutia-se política, os velhos tempos. E nesse vai-e-volta de lembrar uma pessoa, um fato, um acontecimento, a memória passava por dentro de um bar. Aos poucos, a conversa foi-se organizando, um novo filme se delineando. Se nos primeiros Carvana permanecia como espectador de um mundo de malandragem, suburbano e de favela, agora sentia necessidade de falar não só de si mesmo, como também de todo um grupo e especialmente de um momento que viveu.
Após sete meses de conversas, fitas gravadas, o roteiro inicial foi reescrito. Decidiu-se que o filme centralizaria a ação em um bar, mistura de todos os bares da boêmia da zona sul, na década de 60. Os personagens, inspirados naqueles que frequentavam o Zeppelin, o Jangadeiros, o Degrau. Os acontecimentos do filme, baseados nas lembranças, no folclore, situações vistas ou ouvidas. Como eixo, o relacionamento de Anna Moreno (Marília Pera), atriz em papel odiado pelo público em novela de sucesso, e Zeca (Hugo Carvana), roteirista de televisão em crise existencial. História de amor e humor, tendo como ponto de referência o Bar Esperança. O filme é a lembrança do tempo em que os bares, segundo Carvana, eram verdadeiras tribunas democráticas para artistas de todas as áreas (de sucesso e desempregados), onde boêmios e jornalistas, brancaleones da cultura, se encontravam. (…)
Armando Costa, um dos roteiristas, garante que 90% das situações do filme, de fato, ocorreram nos tempos áureos dos bares de Ipanema e Leblon. (…)
Hugo Carvana chegou ao fim das filmagens como oito quilos a menos: acumulou as funções de produtor, diretor, roteirista e ator e ainda encontrou tempo para trabalhar ativamente na campanha eleitoral de Leonel Brizola. Para ele, o filme é uma ficção inspirada em anos e anos de boêmia. Os personagens, resultado de combinação de várias personalidades da vida real: bares dos anos 60 e 70 eram frequentados por Cotinhas, Cabelinhos, e Passarinhos. (…)
Hugo Carvana não estava preocupado em fazer sociologia ou um filme político. Após o primeiro roteiro, o quinteto criador percebeu que o resultado era amargurado, panfletário, mais preocupado com a denúncia de injustiças contra os índios e alertas contra as multinacionais. Se o lado ideológico de Carvana poderia até ficar satisfeito, o artista não gostou. Faltava, a seu ver, afeto, dramaticidade, encontro e desencontro. O casal com dois filhos – a cultura da tribo urbana – passou para primeiro plano, e em segundo personagens de uma época, representantes de vários segmentos artísticos e intelectuais.
— Os bares ferviam até 1968 – lembra Carvana. Era o auge da esquerda festiva, uma forma de criticar o golpe de 64. Com o AI-5, veio a tortura, a morte, o medo de falar. E com isso, os bares daquela época foram se descaracterizando.
O jornalista Ivan Guerra (Nelson Dantas) faz um juramento na festa de encerramento do Bar Esperança, que vai abaixo para dar lugar a um edifício: “Nunca frequentará bar de shopping de shopping center”. Isso porque, o AI-5, a especulação imobiliária, o aumento da agressividade na cidade foram responsáveis pelo fim de uma época, retratada no filme com o fechamento do Bar Esperança.
Atualmente, vice-presidente da FUNARJ, Carvana é uma prova viva de que o tempos realmente mudaram. Ele, por exemplo, não vai mais a bares, quase não sai à noite, e, quando sai, prefere restaurantes, Vianinha, Paulo Pontes, Hugo Bidet, Roniquito, Vinicius, algumas das presenças obrigatórias no folclore dos bares, já morreram. Teresa Aragão continua frequentando bares, mas diz que o clima é o outro. Os bares refletem o clima – frequentadores, e estes, o clima do país. Armando Costa, hoje sem bar fixo, “frequenta qualquer um do Leblon”, também garante que os bares mudaram.
Há dez anos você conhecida 70% das pessoas num bar. E, o fundamental, as pessoas se davam bem. Hoje, você não conhece quase ninguém. – Não tenho nada contra estranhos, pelo contrário – mas quem se conhece, e se dava bem, se agride de uma forma lamentável, têm uma relação melancólica hoje. Talvez os bares sejam reflexo da agressividade da cidade.
Apesar da saudade de um tempo mais alegre, mais festivo, Bar Esperança, garantem Carvana e Armando Costa, não é saudosista. É um filme que prevê mudanças sociais e políticas. Um filme autobiográfico de todos os roteiristas e lembranças de uma época, segundo Carvana. E mesmo constatando não ter mais o preparo físico de seus tempos de boêmia, Carvana brinca: Não existe mais um lugar como o Bar Esperança. Se alguém encontrar, me avise. Que a esse bar eu vou.


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