Ousar, sonhar e criar (Feminino Plural, Vera de Figueiredo, 1976)

Feminino plural inicia do jeito mais real e cru possível no momento em que estampa já em seu título de quem está falando. No – e em – primeiro plano, fora de foco, mas repleto de fluido, sangue e dor apresenta o corpo de uma mulher que exerce ali o que talvez seja o mais determinante papel social atribuído a uma mulher quando ela segue “os caminhos que foram designados para você quando você nasceu mulher”1: a capacidade reprodutiva e como a partir disso seu papel de mãe, esposa e trabalhadora será explorado, percurso “natural” este retratado no filme.

Vera de Figueiredo é muito material em sua visão sobre a realidade feminina se observamos sua abordagem sobre a condição das mulheres. Essas ideias não nascem com este filme, mas são materializadas a partir dele, concretizadas através dessas imagens. Ela observa sua própria realidade e deixa explícito desde o início a partir de qual olhar esse filme então será captado, repetindo inúmeras vezes o mesmo plano de uma mulher que olha para a câmera, mas que ao mesmo tempo parece olhar para si mesma, para sua própria história e nos devolve o que ela olha, as imagens que seu olho observa e captura. É na agência desse olhar que é convocado ao mesmo tempo o que se quer ver, como se quer ver e ser vista, elementos aqui complementares, inegociáveis e por isso pontos chave do filme.

Essa mulher parece atestar que ao mesmo tempo que sente a dor da realidade de existir nesse mundo, insiste em desobedecer as palavras de ordem que lhe são oferecidas desde seu nascimento: “sem ousar, sem sonhar, sem criar”2 e a partir do que seus olhos ainda livres – diferente de muitas outras partes do seu corpo – veem e podem criar, oscila entre essa realidade indigesta e o sonho. Possibilidade de criar algo que não seja sempre outro ser além dela mesma.

A dor de existir nesse mundo é manifestada desde o primeiro plano do filme e se desenvolve na narrativa à medida em que intercala o que é a realidade e as possibilidades de fuga dentro (como desvio) e fora (como sonho) dessa mesma realidade. Após esse primeiro plano do parto, o que vem em seguida poderia não ser tão curioso e passível de estranhamento, mas é, dentro da realidade existente.

Vemos um grupo de mulheres em uma rodovia dirigindo motos, elas estão em bando e por um bom tempo vão dirigir, passar por caminhões, ônibus, pessoas, lojas, tudo o que pode ser facilmente identificável como pertencente ao mundo real, factível, material e mesmo assim existe uma inadequação desse espaço em relação a elas. Há algo que merece ser observado com atenção e estranhamento nessas imagens e, não obstante, elas nos são dadas e confirmam o estranhamento – tanto pelos transeuntes que são surpreendidos por esse bando e por isso o observam a partir de distintos pontos de vista que nos são oferecidos na cena, quanto por nós espectadores – e tudo isso não porque essa mulher que constrói essas imagens pensa assim, mas porque é assim, inadequado e sem possibilidade de acesso no imaginário vigente.

Após essas imagens que abrem o filme como um golpe de realidade, essas mulheres, que parecem ir exatamente na contramão do que as palavras de ordem “sem sonhar, sem ousar, sem criar” oferecem, chegam a uma espécie de fortaleza, de lugar seguro, onde começa a ser possível tudo que vem sendo constantemente negado. Elas entram nessa fortaleza e vemos todas as mulheres que vão participar da construção desse sonho passar pela porta da frente, todas precisam ser vistas. E elas chegam de uma longa viagem com a comida feita, e mais, feita e não por elas, elas são servidas. Ali elas comem, comem muito, dançam, bebem, riem até quando se cansam e simplesmente caem no sono.

Novamente, essas imagens poderiam ser banais, mas não são. E é um deleite observar essas personagens fazendo tudo isso, ver essas imagens sendo criadas, porque talvez isso ainda seja um sonho. Esse momento não existe despretensiosamente para preencher a condução da narrativa, nada neste filme. O ato de comunhão da comida não se faz na cozinha, na confissão de uma vida pacata – muitas vezes única oportunidade de lugar seguro para confissões entre suas pares –, infeliz ou restrita umas com as outras em forma de cochicho enquanto cortam legumes e mexem panelas ou na mesa de uma família que se equilibra no trabalho de mulheres para se manter, mas sim no completo ato de devorar o que elas acharem que precisam devorar ali de forma voraz, custe o que custar, e esses primeiros minutos oferecem muito bem o caminho a ser perseguido junto delas.

Isso era o mais importante: que essas mulheres não traziam tudo o que elas eram. Havia uma mágoa, uma vontade de dizer. Estávamos todas explodindo.3



A fome, a vontade, o desejo não são de forma alguma renegados aqui, eles são constantemente convocados. Se existe uma abertura em Feminino Plural (1976), com certeza é para essas mulheres famintas. E se até então estávamos tendo que nos acostumar ao estranhamento, cada vez mais ele vem à fórceps na construção desse sonho, como se essas imagens pedissem para parar de causar estranhamento – muitas vezes em forma de desespero explicitado pelas inúmeras performances, ações, imitações, alegorias – solicitando o tempo todo um espaço na realidade. Aqui nosso olhar vai ter que se acostumar com essas imagens ao menos neste filme, nesta uma hora e dez minutos de duração. 

O olhar feminino aqui é central, inclusive o plano do olhar que já foi citado, vai e vem muitas vezes como se precisasse se reafirmar e fazer presente o tempo todo, porque esse filme tem como foco as mulheres e elas por grande parte do filme se observam, observam umas às outras, se tocam, gritam, riem, acariciam. Para além de explicitar no olhar o que é duro e cruel da realidade material das mulheres, existe também, no entanto, uma abertura à reestruturação de imagens que existem dessa forma dolorida para uma forma diferente, como se esse mesmo olhar precisasse, dentro do que já existe, reestruturar o imaginário do que foi pré-concebido e modificar radicalmente as noções do que ainda é visto. Exemplo disso se dá na relação das mulheres com seu meio, com a velhice, com a maternidade, com a questão racial, sexual. Um outro olhar precisa ser colocado como possível, é urgente e necessário para uma existência justa e plena.

A possibilidade imagética como demanda para o real no que diz respeito a modificar de forma radical como as mulheres querem ver e ser vistas não somente na vida, mas nas suas representações em filme que nos leva a ver aqui uma mulher idosa se observar no espelho e gostar do que vê, das marcas da sua pele, do tempo que passou justamente por ter uma vida que tem valido a pena ser vivida nesse mundo recriado por essas imagens, a saída de Léa Garcia de dentro de um baú gritando com orgulho e satisfação após a constatação orgulhosa, dentro de uma realidade que assim permita, de ser uma mulher negra livre, a relação de apoio e comunidade quando essas mulheres acariciam a barriga de uma mãe ao mesmo tempo que a olham no olho e lhe acariciam com afeto, com conversa, com sonhos, com pertencimento.


Acho que o filme está sendo redescoberto porque as pessoas estão redescobrindo a elas próprias.4



Até então o ambiente de sonho, a fortaleza, continua livre de quem normalmente costuma desestruturar essas estruturas seguras para as mulheres: os homens. Eles não aparecem de forma tão frontal ou destacada nessa primeira parte do filme, no entanto, surgem em momentos que os colocam no lugar que normalmente ocupam na realidade e no filme são apresentados como alegorias para figuras masculinas atreladas à violência, poder e autoridade de um jeito jocoso, desengonçado e pouco atribuído ao que é construído como masculino, viril.

Há um jogo de estranhamento entre a imagem e o gesto desses personagens, como se eles, representantes dessa masculinidade construída, não pudessem sustentar esse ideal, assim como as personagens femininas que aceitam essa relação com eles lidam com certa ojeriza à aproximação, o que culmina em uma total falta de comunicação e de entrosamento desses corpos, restando apenas o contato através de um beijo – imagem desestabilizadora da “ordem” e não por acaso censurada à época do lançamento do filme nos anos 70 – entre os únicos que ali se afeiçoam por só conseguirem se entender na superfície entre seus pares: os homens. O afeto não é destinado às mulheres que ali observam tudo de longe e se divertem fazendo graça de toda essa encenação da performance masculina. 

Dentro desse sonho aquilo é uma encenação, não que na realidade também não seja, mas certamente não há espaço de muita diversão para as mulheres quando os homens exercem suas posições de poder a partir da imposição da submissão e da censura. Entretanto, fica evidente que ninguém ali desempenha bem os papeis oferecidos, dentro desse sonho que grita por um espaço na realidade também existe brecha para uma reconstrução possível da relação entre homens e mulheres e a proposta para uma dissolução desses papeis.

O poder aqui é proposto através do olhar e nós sabemos quem normalmente está submetida, quem é observada, exposta, mas como Vera propõe o caminho contrário, aqui quem tem o poder do olhar é a mulher e essa ideia se materializa de forma muito forte em uma cena em que mais uma vez o plano do olhar é repetido como uma espécie de aviso. O que vemos a seguir é a formação imagética do desejo de uma mulher, a fantasia em relação a um homem, ao corpo desse homem e tudo que ele pode lhe oferecer. Se as mulheres estão famintas é de tudo, e também é de poder devorar os homens com os olhos, assim como eles as têm devorado há tanto tempo. Não ser apenas objeto de desejo, afinal, que mal há em extrair do corpo todo potencial que ele pode nos dar? Vera não nega isso, ao final os homens vão chegar de todos os lados – mas também reivindicar a construção e existência de um objeto de desejo que supra nosso olhar, uma via de mão dupla.

O erótico é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso íntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.5

Essa cena se inicia com um plano que observa um homem na praia, em seguida há um corte para o plano do olhar e depois vemos uma mão feminina agarrar o cabelo desse homem que é inicialmente observado. Quem deseja e vai atrás do seu objeto de desejo é essa mulher e a construção da relação sexual desses personagens se diferencia de uma forma muito sutil do que é comumente oferecido nas representações, sutil como o tecido branco fino que cobre parcialmente o corpo da mulher – comumente super exposto nesse tipo de cena – e deixa completamente nu o corpo daquele homem desejado. A inversão de papeis aqui ocorre porque assim precisa ser para desestabilizar o que é vigente e abrir espaço para a o desejo e a vontade, que vai além de ser apenas sexual, mas aponta para a ordem do que é simbólico e reivindicado a partir dessas imagens: a liberdade de desejar e de poder ver isso à sua disposição no mundo, para assim poder fazer parte de forma integral desse mesmo mundo, pertencer.

Todas as imagens dessa uma hora e dez minutos de sonho representam isso, a urgência e a necessidade desse sonho virar realidade e Vera contribui demais com a construção desse imaginário quando torna isso possível em filme, na certeza que essas imagens ecoam com o que carregam em seu estranhamento e seu prazer no olhar de cada pessoa que se permitir ser atingida por elas. Se essas imagens instigam a vontade da construção real de um mundo em que isso aconteça fora das telas é porque algum dia precisou existir dentro delas.

Alguém teve que ousar, criar e evidenciar dentro das possibilidades da linguagem esse desejo muitas vezes negado, reprimido e principalmente não oferecido às mulheres por também existir pouco espaço de construção dessas imagens partindo de quem era de real interesse para elaboração de um pertencimento verdadeiro no mundo com tudo que ele tem a oferecer para quem quer se fartar de tudo que nos torna realmente humanas.

Para Vera e tantas outras mulheres no cinema e fora dele também, um dos caminhos dentre tantos outros que possam existir contrários às palavras de ordem “sem ousar, sem sonhar, sem criar” com certeza passa pelo poder que é olhar com firmeza ao que se deseja e para isso precisamos de imagens que sejam também agradáveis, prazerosas ao nosso olhar e para nós como mulheres. Feminino Plural (1976) com toda certeza traz muitas delas.

Fomos criadas para temer o sim dentro de nós, nossas mais profundas vontades. Mas uma vez reconhecido, aqueles que não melhoram nosso futuro perdem seu poder e podem ser mudados. O medo de nossos desejos os mantém suspeita e indiscriminadamente poderosos, pois suprimir qualquer verdade é dar a ela uma força além da resistência. O medo de que não podemos crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas nos mantém dóceis e leais e obedientes, externamente definidas, e nos leva a aceitar muitas facetas da opressão que passamos enquanto mulheres. […] Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia necessária pra fazer mudanças genuínas em nosso mundo, mais que meramente estabelecer uma mudança de personagens no mesmo drama tedioso. Pois não só tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos o que é fêmeo e autoafirmativo frente a uma sociedade racista, patriarcal e anti-erótica.6

  1. Fala retirada do filme. ↩︎
  2. Fala retirada do filme. ↩︎
  3. Trecho de entrevista com Vera de Figueiredo disponível em: https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/redescobrindo-o-cinema-brasileiro-feito-por-mulheres ↩︎
  4. Trecho de entrevista com Vera de Figueiredo disponível em: https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/redescobrindo-o-cinema-brasileiro-feito-por-mulheres ↩︎
  5. Audre Lorde em “Usos do erótico: o erótico como poder”. Disponível em: https://traduagindo.com/2023/02/19/audre-lorde-os-usos-do-erotico-o-erotico-como-poder/ ↩︎
  6. Audre Lorde em “Usos do erótico: o erótico como poder”. Disponível em: https://traduagindo.com/2023/02/19/audre-lorde-os-usos-do-erotico-o-erotico-como-poder/ ↩︎

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