Discreto charme, aurora juvenil

“Foi no meio do salão
Foi lá por 72
Que eu descobri
a lei dos corpos
Foi céu aberto, verdes anos
Pouco mais que nada pra pensar”
(Verdes Anos, de Nei Lisboa)


Fazer um filme era como montar uma banda de rock na Porto Alegre dos anos 80. Uma gurizada se juntou e com uma câmera super-8 em mãos fez alguns curtas e três longas até 1983, ano em que receberam uma oferta irrecusável de Sérgio Lerrer para rodar um longa-metragem em 35mm. Esse filme era Verdes Anos, com roteiro de Álvaro Teixeira, adaptado do conto mineiro de Luiz Fernando Emediato, surgido como um projeto superoitista de Sérgio que, infeliz com os encaminhamentos, e tendo acesso a um tanto mínimo necessário de latas de 35mm e um orçamento modesto, convidou Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil para assumirem a direção. Segundo o próprio Gerbase, esse foi “o filme que não queríamos fazer”.

Isso, pois em 1981 a turma já havia lançado e ganhado um Kikito em Gramado com Deu pra ti, anos 70, dirigido por Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil, um longa em super-8 que explorava o universo da juventude gaúcha dos anos 70. Assim, o projeto de Verdes Anos, tinha proposta bem similar, mas ao mesmo tempo apresentava um recorte mais específico de um fim de semana do ano de 1972, no interior do Estado e vinha com a promessa aos jovens realizadores de um cinema mais profissional, o que fez eles toparem o desafio. Por outro lado, o grupo de universitários e recém-formados, principalmente em cursos de comunicação, tinha estabelecido todo um ecossistema de produção e distribuição de seus filmes, à parte e com um amplo desconhecimento do pessoal das capitais do país. Organizados em cineclubes, salas de cinema alternativas, produtoras independentes, revistas culturais, festivais da região, eles agitavam uma cena de cinema local muito particular, que veio a se popularizar além do Rio Uruguai com as produções da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora de parte dessa galera que persistiu nessa história de fazer cinema. É curioso que em paralelo, no ano de 1985, a coletânea Rock Grande do Sul era lançada, levando o rock gaúcho às rádios nacionais.

Segundo Assis Brasil, em texto da época, Verdes Anos é um filme em que os jovens “vão fazer força para imitar os adultos sem dar muita bola pro que os adultos tão pensando deles”. Construiu-se em tela um cinema de vizinhança, que se apropriou das imagens que povoavam a memória dos jovens que o fizeram, e de modo bastante coletivo. Apesar de extremamente localizado, no interior do Rio Grande do Sul, ele é ao mesmo tempo universal pelos signos internacionais do cinema, fazendo com que a escola pública da cidadezinha se tornasse um exemplar “high school”, com todos os personagens-tipo que surgem desse meio e com direito a um intervalo recheado de refrigerantes “ks” e cigarros. 

O filme se inicia com um prenúncio de seu fim. Um prelúdio embalado pela música homônima e pelos sotaques e gírias das personagens, o que seta o tom do recorte de vida dessas pessoas que iremos acompanhar. Nando serve como um protagonista apesar da história abrigar vários núcleos. Ele é eleito para representar esse jovem que passa por um amadurecimento ao longo da narrativa, que quebra um ciclo e acha um sentido em meio à confusão. Personagens a princípio menores, como Rosemari, Pedro, Rita, Lurdinha e mesmo Robertão, acabam tendo suas histórias aprofundadas ao decorrer dos acontecimentos. Isso demonstra uma via que o roteirista encontrou de desenvolver um longa a partir do conto (que contém poucas personagens), dando particularidades para as personagens inventadas e explorando e se interessando por detalhes de suas vidas.

Enquanto em “Deu pra ti”, o dispositivo de gravação usado dava liberdade para a câmera dançar junto a uma personagem, aqui o lirismo se constroi de outros jeitos. A cena do jogo de botões chama a atenção pela câmera se aproximar do jogo enquanto os amigos Teco e Nando precisam ter uma conversa séria sobre uma possível traição e apenas ouvimos os garotos ao fundo, como em uma confidência narrada pela câmera, que contrasta o jogo e a conversa. Outro momento é o da cena de encerramento. Nando conta sobre seus planos com Cândida enquanto o ecrã ilustra sua fala e cria um momento singelo que contrasta os sonhos do jovem, enunciados por ele, com a realidade, o que vemos.

Nem só de sonhos vive essa juventude. Perigoso é o nome dado ao tarado que assombra a cidade com seus ataques sexuais contra mulheres. De certa forma o personagem funciona como a personificação dos perigos da noite e do sexo. Ao mesmo tempo em que cria um tom de suspense que por vezes invade o filme e serve ao desenvolvimento da personagem de Marieta em sua jornada pessoal pela revolução sexual na qual elege-o como oponente. Outro assombro é o Governo Militar. Representado tanto pela polícia, que acaba com a alegria de Nando na praça e o leva pra cadeia, quanto pelas figuras misteriosas que rondam a casa da professora de literatura, por quem Pedro nutre uma paixão platônica, e acaba sendo forçada a abandonar o país. Esse aspecto diretamente político também aparece através da certa liberdade com que o pai de Nando reclama do governo por ter militares na família.

O grupo formado por Marieta e suas amigas são personagens ímpares desse universo, que trazem particularidades entre certos clichês de “teen movies”. Com uma verve “hippie-punk-rajneesh”, as riot gurias maquinam planos e agitam a trama, desde a caça ao Perigoso, passando pela invasão de um jogo de futebol interclasse, até o ataque ao concurso de miss que elas acusam de machista e em que Marieta faz referência ao famoso discurso de Caetano Veloso em É proibido proibir no Festival Internacional da Canção de 1968 ao bradar em meio a vaias “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos!”. O filme brinca a todo momento com a performatividade desses jovens, nessas empreitadas das meninas rebeldes, na insistência da inocência de Nando, na pose de Soninha em meio às disputas dos garotos e mesmo no certo clímax do baile pela generalização da briga motivada por essa disputa. Utiliza-se conscientemente de um imaginário jovem para lidar com tudo com bom humor e construir cenas memoráveis a seu modo, mesmo em sua eventual caretice.

É possível dizer também que o longa opera em duas chaves, tanto em uma certa ingenuidade narrativa e alienada trazidas pela realidade das personagens quanto em uma noção madura de mise-en-scène, com um controle espacial e narrativo, vinda da experiência da turma com os longas de super-8. 40 anos depois, Verdes Anos pode ser visto como o retrato de uma certa juventude gaúcha. Não exatamente pela reprodução de uma realidade, mas sim um retrato da possibilidade de ficcionalização de um grupo de jovens diante de suas vidas e desejos. Retrato esse repleto de baladas radiofônicas da época que quando o filme termina continuam tocando na nossa mente junto das cenas que vimos. Killing me softly

Bibliografia:

https://mosqueteirasliterarias.comunidades.net/verdes-anos-de-carlos-gerbase-e-giba-assis-brasil

https://www.casacinepoa.com.br/blog/2024-06-23-verdes-anos-o-ver%C3%ADssimo-tem-raz%C3%A3o/

https://www.casacinepoa.com.br/textos/prazer-cinema-ga%C3%BAcho/

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