Em Mbyá-Guarani, não há tradução para espaço. Lugar seria rendá ou retã. Por isso a cidade é tetã e a aldeia é tekoá; território/territorialidade, yvy rupá. Creio que tata rupá chegaria o mais perto do conceito de espaço, pois é onde fazemos fogueira. Paisagem também não teria uma tradução. Já que o espaço nunca é só físico-material para nós, paisagem remete a algo que envolve as relações. Quer dizer, não sei dizer a diferença entre o espaço e a paisagem, ou onde começa um e termina a outra.
O espaço inclui muitas coisas. A paisagem inclui todas as coisas que consigo ver: jaexa va’e, tudo o que enxergamos.
Quando falamos em espaço é impossível não falar sobre as modificações dos espaços, e nisto incluímos as fronteiras impostas pela sociedade não-indígena. São muito poucos os espaços que ao longo da história não foram modificados pelo homem (brancos e povos ancestrais). Alguns foram modificados pela própria natureza, e todos possuem um passado histórico, foram transformados pela organizaçã o social, técnica e econômica daqueles que os habitaram ou os habitam.
As alterações espaciais feitas pelo homem branco aconteceram desde a primeira chegada dos não-indígenas na América do Sul até a época presente, de monocultura e criação de gado, transformando assim o espaço natural. Desta maneira, com o passar do tempo, o processo de transformaçã o e produção do espaço foi se intensificando. Como dizem os juruá kuery (os brancos), os “avanços das tecnologias” permitiram ao homem melhorar sua capacidade de “desenvolvimento”. Isso acontece desde quando o homem aprendeu a produzir ferramentas e estratégias de cultivo que auxiliassem na produção e extração de alimentos. Mas há uma grande diferença das modificações espaciais feitas pelos homens brancos e as feitas pelos povos tradicionais.
Dessas modificações, as mais drásticas e visíveis para mim são os avanços das cidades, em que cada espaço é como um quadrado cercado, individual e gerador de lucro. Creio que a criação desses espaços individuais foi perpetuada desde a chegada do primeiro homem branco em nossas terras, um grande exemplo são as capitanias hereditárias. Na cosmologia Mbyá-Guarani, a terra não pode ser vendida nem ser de ninguém. O espaço não pode ser capitalizado.
Mesmo que cada família tenha sua casa, esse espaço não pertence a ela, como propriedade, mas como um espaço de partilha com a própria terra. Respeitamos a terra e respeitamos cada ser que usufrua de seu espaço, como animais e plantas. Atualmente temos que lutar para ter nosso espaço coletivo: se não há demarcação, não há terras para nós. No mundo branco, cada quadrado é de alguém.
Para os não-indígenas existem diferentes categorias para os espaços, para nós Mbyá, não existe separação entre espaço, território, paisagem, lugar e região. Tudo isso para gente é a Yvy Rupá. Também não existe a separação entre a natureza e o humano. Para nós não existe espaço individual e antigamente não existia um território delimitado, ou seja, demarcado, definido de forma que essa delimitação obedeça a uma relação de posse ou poder.
Quando se fala do espaço, na cosmologia Mbyá, também se fala dos sonhos… É através dos sonhos que os espíritos mostram o espaço, o lugar para onde se deve ir. Nos movimentamos através dos nossos sonhos, traçando nosso caminho, jeguatá. O simples fato de alguém se mudar de uma aldeia para outra tem a ver com os sonhos, assim como o deslocamento para uma visita aos parentes, as trocas de semente… Através dos sonhos, podemos prever e sentir o tempo e o espaço. Arandu (ara – dia/tempo, ndu – escutar/sentir) baseia-se nos sonhos. Ouço muito os mais velhos falarem sobre o sonho de irem para um lugar que tenha muita mata e onde possam caçar queixada (nosso animal sagrado).
Eu sei que é difícil achar um lugar assim atualmente e isso me deixa um pouco triste. Hoje em dia é pouca mata. Está tudo desmatado, com plantação de soja, criação de gado ou, quando não, é parque, espaço em que o próprio governo não nos deixa entrar, pois também acham que são donos.
Com isso, se uma pessoa sonhou com um lugar específico, ela simplesmente não pode ir até lá. Não é possível se deslocar livremente de um lugar para o outro porque a maioria dos espaços já é de alguém, já é propriedade privada. Se a pessoa está na Argentina, por exemplo, e quer vir ao Brasil, enfrenta a fronteira, precisa de documento e de outras burocracias para atravessar a fronteira entre esses países. Não fomos nós que colocamos essas fronteiras, por isso se torna muito difícil para nós entendê-las, principalmente para os nossos mais velhos. Coisas simples para nós, como ir do Brasil à Argentina – para buscar alguma planta, sementes, algum material para artesanato – torna -se complicado, pois na maioria das vezes somos barrados na fronteira seja porque faltam alguns documentos, seja porque vão crianças sem os pais. Deslocamentos que antes dos brancos aconteciam e agora não podem mais acontecer. Isso atrapalha a troca que sempre existiu.
Tudo era uma grande aldeia antes de ter fronteira. As “fronteiras entre Argentina, Paraguai e Brasil”, não chamamos assim, chamamos de ovaire (do outro lado). As pessoas de lá falam assim para se referir ao Brasil e a gente fala assim no Brasil para se referir à Argentina: o outro lado do rio.
Para se construir uma casa de reza, a disposição dela no espaço tem que ser pensada de acordo com nossa cosmologia. Devemos sempre olhar e meditar virados para a morada de Nhamandu e a porta sempre deve ser posicionada de acordo com os ensinamentos de cada karaí. O que seria isso? Pensamento de Lugar? Espaço? Paisagem? Por isso não temos uma definição desses termos, mas sim uma orientação que varia em função de cada pessoa, de cada lugar do nosso nhadereko (modo de ser).
Trechos de “Entrevista com Ariel Ortega, cineasta Mbyá-Guarani” por Luisa Tombini Wittmann e Marcelo Téo. Publicado em Fronteiras: Revista Catarinense de História. Dossiê História Indígena e estudos decoloniais, N. 31, 2018/01
P: No cinema guarani, especificamente, você considera que se trabalha com o imprevisível numa autoria coletiva?
Não dá para escrever o roteiro antes porque tudo pode mudar, tem a ver com o ritmo da aldeia, como estão as pessoas, as lideranças. No meio das filmagens tudo pode mudar, fazemos várias reuniões. A gente sempre tenta acompanhar o que está rolando naquele momento, naquela época. Na primavera, são conversas sobre as plantações, colheitas, preparações de terra. No inverno, observamos o que está acontecendo, quais são as atividades. Então não temos o roteiro pronto, para que os jovens que estão fazendo as oficinas [de audiovisual] possam ir descobrindo a procurar a história, a aprender a contar a história através do cinema. E para que a comunidade mesmo participe, porque os filmes são da comunidade. Toda a comunidade tem que estar sabendo o que a gente está fazendo. A gente projeta o material bruto durante a noite com a comunidade. A gente chama todo mundo, sempre.
P: Qual a importância do audiovisual para dentro da comunidade indígena?
É muito importante como registro, como memória. Todos os conhecimentos, tudo a gente aprende escutando e guarda na memória, desde criança. Mas muitas dessas coisas, assim como em qualquer outra cultura, também vão se perdendo. Por exemplo, hoje em dia, a maioria das comunidades já tem escola e as crianças não estão mais crescendo como antigamente, não ficam na beira da fogueira durante a tarde, vão perdendo um pouco essa coisa da oralidade, dos líderes falarem sobre a nossa cultura, o nosso jeito de ser guarani. Hoje em dia tecnologias estão chegando muito rápido dentro da aldeia, como celulares, redes sociais, computadores, televisão. O cinema é muito importante para termos materiais nossos, filmados dentro da aldeia pela gente mesmo. Tudo isso é mostrado dentro da aldeia, e também assistimos os trabalhos de outras aldeias para saber como a nossa aldeia é diferente, quais são as dificuldades, os problemas de território. Por exemplo, o filme Bicicletas de Nhanderú mostra muito os dois meninos cruzando a cerca da fazenda para fazer armadilha e buscar lenha, são algumas questões que outras aldeias talvez não saibam, e os próprios não indígenas principalmente. E isso vai gerando discussões dentro da aldeia, então é uma ferramenta política também para os jovens, isso dá muito apoio para as próprias lideranças. Não somente política, mas para algumas questões ou problemas internos que muitas vezes temos dentro da aldeia. Algumas vezes a gente não enxerga e, quando faz o filme, finalmente a gente acorda e vê o filme nos olhando, na tela. Eu aprendi muitas coisas da minha cultura conversando com os Karaí, e isso para mim foi muito importante. Traduzindo eu aprendi muitas palavras que eu não sabia em guarani, algumas palavras mais filosóficas, porque muitas vezes quando os mais velhos falam muitos jovens hoje em dia não entendem, e eu traduzindo o material comecei a entender muitas coisas. Por isso também eu acho importante ter esse registro das falas, ter o material bruto, não somente para fazer o filme. Eu aprendi muito mesmo.
P: Você vem desenvolvendo um jeito de fazer cinema muito singular. Ao caminhar com a câmera na mão conversando com as pessoas, permite ao espectador olhar o mundo a partir de uma perspectiva guarani. Você encontra a história que quer contar ao mesmo tempo que faz parte dela, algo que muitos documentaristas ocidentais tentaram fazer, mas talvez não com o mesmo nível de profundidade.
Eu só consigo mesmo sentir quando estou filmando. É muito o momento, eu guarani, nosso jeito de ser guarani. Quando eu pego a câmera não é instantaneamente que eu entro na imagem. Demora um pouquinho para vir essa inspiração. E não é somente o filme. Na hora que eu estou fazendo eu não fico vendo o documentário futuramente, eu estou vivendo muito 100% ali. Nem um momento vem na minha cabeça: isso vai virar um documentário, eu estou fazendo um documentário. Eu acho que a diferença dos cineastas ocidentais é que na filmagem eles já tem um filme na cabeça, e para o meu ser eu estou no momento. O Karaí é uma pessoa sábia, eu fico sentindo todas as coisas, tenho que ficar olhando nos olhos, o suspiro. É muito difícil de explicar.
Entrevista disponível na íntegra em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/FRCH/article/view/10569/6051


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