Podcast Cinematório, por Renato Silveira e Kel Gomes.
Exibido dentro da Mostra Olhos Livres em Tiradentes, “Até o Fim” é o terceiro longa da dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa. Antes, eles dirigiram “Café com Canela” (2017) e “Ilha” (2018). O elenco é formado por Arlete Dias, Wal Diaz, Jenny Muller e Maíra Azevedo.
P: Como você chegou na escolha das atrizes e como elas contribuíram para o roteiro? De que maneira elas incluíram suas próprias vivências e o que elas também tinham a dizer? E, como vocês estão lidando com laços familiares duros, coisas pesadas que eu acho que tocam todo mundo em algum nível, chegou algum momento durante o filme que criou um peso que vocês tiveram que respirar um pouco, conversar? Queria saber um pouco desse processo de vocês.
Glenda: Eu gosto de pensar que o cinema que a gente faz também é muito caseiro. Em uma época eu falava artesanal, agora eu já estou até em caseiro, e acho que com esse filme, que tem uma proposta na própria imagem de uma câmera um pouco mais caseira, quase como um vídeo de família com aquele enquadramento, aquela tela menorzinha… Acho que caseiro é uma palavra que cai bem pra agora, que é no sentido dessas relações familiares mesmo. Quando eu falei da nossa equipe antes, do processo com a construção da equipe, é a mesma coisa com relação ao elenco. A Arlete trabalhou com a gente no Café com Canela (2017), é a única atriz que atravessou todos os nossos filmes… No Café com Canela ela fez Cidão, no Ilha (2018) ela fez Brasil, e agora no Até o Fim ela faz Rose. E a gente se aproximou muito da Arlete nesse processo. Ela abriu a porta da casa dela pra gente, ela mora em Salvador, na Boa Viagem. E a gente foi se aproximando cada vez mais, passamos um final de semana conhecendo a família dela, conhecemos a Wal Diaz que faz a Geralda, que é a irmã dela, a Maíra Azevedo, que é a sobrinha. Foram todas relações familiares, as nossas referências eram a irmã da Arlete, a sobrinha da Arlete… E quando Ary escreveu esse roteiro, lembro que a Arlete era uma coisa que a gente já tinha definida, ela ia estar nesse filme. E a partir da Arlete a gente pensou: “nossa, a Wal é muito legal, né?” E a gente começou a olhar pra isso, sabe? E depois chegou Jenny, que não é da família, Jenny Muller que faz Vilmar. Os ensaios eram sempre na casa da Arlete e sempre terminavam em festa, com uma feijoada, uma maniçoba, com esse lugar do encontro mesmo, porque a gente trabalha, e o trabalho também é a nossa cachaça, né? A nossa cerveja. E foi assim, sabe? Foi muito pela Arlete, é gostoso porque isso faz toda a diferença pro filme, pra relação que aquelas mulheres já têm. E eu acho gostoso pensar também que as três têm um nível de envolvimento que depois quando chega Vilmar, que é a Jenny, ela é a única pessoa que não é da família da Arlete, e no filme ela é a irmã que é a mais distante né? Por que ela tem todo um caos pra Geralda que torna ela distante em um primeiro momento da relação. Acho que isso também vai pro filme.
Com relação aos temas difíceis, claro que cada filme te impregna, quando você está fazendo um filme parece que você vive aquilo, né? Eu gosto de fazer cinema por isso, talvez. Do set, principalmente. O set é uma coisa que você fala “nossa, acho que vale a pena”, que é esse momento em que você dá uma pausa no mundo e fica só com aquele mundo fritando na sua frente. E aí eu acho que no set em si a gente já estava muito organizada, porque a gente respeita muito os processos de pré-produção, então geralmente quando a gente chega no set a gente já está muito lúcido das questões. Eu acho que o set não é um lugar de muita emoção pra gente. Claro que eu me emociono, uma das cenas em que a Arlete e a Maíra fizeram, que é na cozinha, aquela cena elas falaram “ah, vamos fazer um ensaio? Só pra gente ter uma noção da marcação, só pra dar uma passada no texto”. Aí elas fizeram valendo, e a gente ficou tipo… Quando acabou todo mundo estava destruído. E aí pelo amor de Deus, foi uma cena que desestabilizou muito. Eu lembro que essa foi uma cena que a gente ficou paralisada. Houveram outras, mas essa especificamente. Mas num geral, o set é um lugar de praticidade, é o lugar que você chega pra resolver as coisas. É muita gente, é muita técnica, muito cabo, é um lugar de trabalho. Acho muito doido o cinema por causa disso também. Porque é um lugar de muita poesia, mas não tem nada de poesia. O cinema é uma mentira, é tudo mentira, é fingimento, porque a poesia tá em outro lugar, tá na alma, em outro lugar do filme. Porque o set em si é bruto. Mas o nosso ainda tem muito amor, viu? Bruto porque a estrutura é assim, mas a gente vai corrompendo também.
P: Aqui nos debates, nos filmes também, uma questão que está presente é a importância das histórias das e sobre as pessoas pretas serem contadas pelas pessoas pretas. Como tem sido reivindicar esse lugar, ainda mais nos tempos em que estamos vivendo no nosso cinema? E o que envolve essa importância pra você? E também como mulher negra, em uma batalha ainda mais difícil por isso?
Glenda: Acho que parece que tudo é muito desigual. É disso que a gente estava falando sobre as mudanças que o próprio festival de Tiradentes sofreu ou vem sofrendo. E a gente sabe que são passos muito pequenos perto do que deveriam ser. Da enxurrada, da avalanche que deveria ser pra inundar tudo. É muito complexo falar desse lugar que não seja também um lugar óbvio. Por que eu ando cansada de pensar nesse debate dentro de uma caixinha que parece que antes era “vamos falar sobre isso, mas a gente fala dentro dessas pautas, pronto”, e não, é muito mais profundo. E eu acho que é isso, a gente precisa ir ocupando pra ir alcançando e fazendo a roda girar nesse sentido de ir cavoucando mais esse debate, trazendo pra superfície umas coisas que estão soterradas. Pra mim, ter passado o filme da Viviane (Ferreira) no dia anterior, Um Dia com Jerusa e na noite seguinte passou o nosso filme, Até o Fim, na noite seguinte passou o curta da Mari, em uma sessão bem bonita… São coisas que revelam que existe, né? Por que às vezes fica nesse lugar também da invisibilidade “porque não tem, porque tem pouco”… Tem pouco porque vocês não davam recursos, né? Tem pouco porque a gente não nasceu em berço de ouro, em berço esplêndido, o cinema não foi um bem que nos foi passado e as pessoas nem queriam que a gente fizesse cinema. Quem queria que a gente fizesse cinema? As pessoas estão bem contentes falando dos seus dramas particulares, familiares, da janela do apartamento da sua casa, bebendo sua cerveja. E acho que tem coisas que as pessoas não querem ver. Uma coisa que eu senti, que comentei com algumas pessoas, foi que eu fiquei muito contente porque foi uma das primeiras vezes que eu consegui ir em um festival sem ter que provar que a gente tinha escolhido, sabe? No Café com Canela as pessoas ficavam falando “é muito inventivo, vocês filmam diferente”. É claro que a gente filma diferente, a gente não é vocês. E eu acho muito doido o papel da crítica e da própria curadoria às vezes de querer falar que “é diferente, não segue essa norma culta do cinema, então vocês fazem errado”. E eu acho que as pessoas tentaram falar isso pra gente, vêm tentando falar isso pra gente há muito tempo. Mas eu acho que as coisas estavam tão bem amarradas e a gente sabe tão bem o que a gente está fazendo, tudo é tão escolha que as pessoas não tiveram argumento, sabe? A gente passa e o público bate palma. Então assim, a gente também é mercado. Porque as pessoas falam “ah é muito diferente, é um cinema de nicho”. Sério que falar de gente preta é cinema de nicho? Por que quando mostra morrendo não é de nicho, né? Quando mostra morrendo tudo bem. Mas quando é uma pessoa preta falando o filme inteiro aí é de nicho, aí é cinema negro, a branquitude se incomoda. Eu acho isso uma grande porcaria. E eu fico muito assustada, porque eu não entendi ainda se esse lugar é conquistado ou se as pessoas estão dando uma coisinha pra gente, pra conter. Mas é incontível, as pessoas precisam saber que é incontível e que não tem volta. Mesmo com todos os retrocessos que estão acontecendo, gosto de pensar que não tem volta. As pessoas que entraram na universidade… Não tem volta. Estão formadas, estão pensando, estão refletindo e estão agindo, principalmente.
Eu vou embora amanhã, acompanhei alguns filmes da mostra, e uma coisa que me deixou muito abismada, feliz e contente, é dos filmes feitos pelas pessoas pretas, pelas mulheres pretas, o quanto eles têm uma vivacidade, sabe? Eu estava falando com a Vivi, claro que tem um ritmo diferente, eu não prevejo o ritmo, não falo “quero fazer um filme lento”. Eu prevejo na cena. Eu dependo do corpo da atriz, então acho que é um cinema que está mais preocupado com gente do que com equipamento. Se puder ter a melhor câmera, eu quero a melhor câmera, mas eu faço cinema de qualquer jeito. O Até o Fim é um pouco disso. Você não vai ficar esperando os melhores recursos pra poder fazer cinema porque eu sei que não vou ter os melhores recursos. A gente nunca conta que teremos, nunca é certo pra gente. A gente tem uma trajetória de incerteza muito grande. E fico muito feliz, porque às vezes eu fico pensando e eu lembro das vezes que eu estava fazendo cinema e ia em festival, e tinha uma cultura da apatia, né? Um cinema que era apático. Um cinema de branquitude que era apático, que é esse drama – e eu adoro drama, adoro todos esses mimimis – mas acho que tem um lugar da apatia que me incomoda muito. E acho que esse cinema da periferia, como o cinema dos Irmãos Carvalho, é feito por gente que é gente, e que filma gente, e que tem esse pacto em comum antes de tudo no filme, sabe? Acho que isso traz todos os deslocamentos, porque você olha para as pessoas, né? Você olha para os seus personagens, olha para o seu elenco, para a sua equipe, para as pessoas que estão fazendo, e elas vão moldando o filme também. Não acredito nessa coisa da imparcialidade de que qualquer pessoa que fizer vai ser a mesma coisa. E eu fico muito feliz de pensar que é um cinema que é vibrante e que toca as pessoas pra caramba, toca público. Eu acho que pra mim talvez esse seja o argumento mais poderoso. Porque às vezes a gente fica falando e as pessoas não estão tão interessadas em saber sobre isso, em acreditar, às vezes acha que é balela. Mas aí quando você mexe com dinheiro, com bilheteria, com visibilidade, a gente sabe a quantidade de pessoas que vieram ver os filmes. Para ver o filme da Vivi que a segunda exibição está sendo aqui, a primeira foi no Zózimo. Você sabe a relevância que tem, sabe todas as pessoas que estão vindo pra cá pra assistir o meu filme porque eu já passei várias vezes, já construí uma trajetória. Então a gente também traz gente. Por que às vezes as pessoas podem pensar que é uma questão de cota. Isso é uma coisa que a gente precisa ficar muito atento, porque não é uma cota que a gente precisa, porque a gente traz bilheteria, a gente movimenta mercado, e tem pessoas que só vão entender assim, quando cair no dinheiro. Mas se for assim, também não tem problema, desde que a gente tenha a nossa parte o dinheiro faz bem e a gente gosta muito também, obrigada.
Podcast disponível na íntegra no site do Cinematório.


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