É na proporção de tela 4:3 que assistimos, durante 1h33min, quatro mulheres sentadas em uma mesa, durante uma noite, à espera da morte. Até o Fim (2020) apresenta a história das irmãs Arcanjo por meio de diálogos que, naturalmente, transformam-se em monólogos carregados de um teor teatral que se mescla ao poético, trazendo uma naturalidade própria do convívio.
O filme de Ary Rosa e Glenda Nicácio é composto pela narrativa do reencontro das quatro irmãs que, após 15 anos, se conectam por meio do conforto do desabafo, na externalização do que viveram, sentiram e ainda sentem. É na espera pela morte do pai que, aos poucos, a vida vai sendo retomada. Situado no Recôncavo Baiano, o filme apresenta a mesma história vivida por meio de perspectivas diferentes. Utilizando apenas uma câmera, que captura fugazmente feições, trejeitos e expressões, a movimentação do quadro se torna um elemento essencial na transmissão da sensibilidade. Aproximando-se de uma estética dos sonhos e das memórias, a montagem entrega uma experimentação de um cinema das sensações e do sentir. Tudo é sentido: a dor, a agonia, a esperança (mesmo que quase nula), o orgulho, a conquista, a saudade, o ressentimento, o amor.
A narrativa se insere entre monólogos, como se dividida em blocos, cada qual com seu momento. Transcendendo a realidade, numa espécie de conotação mitológica, a história apresenta sua vulnerabilidade. E assim, Geralda, Rose, Bel e Vilmar ganham um pouco de cada um de nós enquanto revelam suas facetas.
Uma praia, um restaurante, e inicia-se a história. Geralda, proprietária do estabelecimento, está à procura de algo. Os cortes são feitos a partir de planos que, em sua maioria, são mais fechados, utilizando-se do plano geral apenas para contextualizar a localização quando necessário. Logo no início percebemos a conversa dos clientes, que nos remete a uma narrativa já conhecida. Os cineastas, Ary e Glenda, representam a si mesmos, discutindo sobre o enredo de seu filme, Ilha (2018).
É noite. Uma cerveja, uma mesa, dois copos, duas irmãs. Diálogos sobre a vida, do passado ao presente. Geralda e Rose. Quinze anos as separam desde que se viram pela última vez; é entre o amor e o ressentimento que essa relação se mantém em tela. O ressentimento do abandono e de ser abandonada. De maneira muito sutil, percebe-se uma barreira na relação, que é ultrapassada a todo momento, indo da conversa despretensiosa e nostálgica ao melindre, construindo um vai e vem entre o afeto e a mágoa. Mesmo a separação pelo tempo não foi suficiente para trazer à tona essas implicações de forma mais compreensiva.
É numa briga com Geralda na areia que Rose, de maneira extremamente poética, nos revela um pouco de sua interioridade: sua vida foi refeita a partir do encontro com a paz em Cachoeira (BA), sendo sua maior tristeza os abortos que sofreu. Cachoeira foi seu recomeço.
Geralda, camuflada em uma personalidade mais arredia, revela, em seu silêncio e olhar, o peso do segredo das violações sofridas. Bel, amante do mar, teve seu amor subvertido pelo trauma e decepção, e precisou aprender a nadar e salvar a si mesma. Vilmar, filha e irmã, precisou ir embora para ser quem sempre foi. De maneira trágica e irônica, o elemento que as une, além do laço de sangue, é o ressentimento pelo algoz que cometeu tais violações: o pai, de quem estão à espera da morte.
Por meio dos diálogos, o filme vai nos apresentando o recomeço de cada uma das irmãs há 15 anos. Tudo se passa na mesa de um bar/restaurante. Quatro mulheres negras com seus pontos de dor e orgulho, uma dicotomia entre o amor e a intriga de histórias não resolvidas. A suspensão do sentimento e da resolução que famílias periféricas conseguem reconhecer no decorrer do longa-metragem, o falar no silêncio e a não permissão para sentir. Ao mesmo tempo, são quatro mulheres vivenciando temáticas de sofrimento, como racismo, solidão, medo e violações. Há, de maneira sensível e natural, a apreciação da irmandade, do reencontro, dos amores e do perdão. Tudo servido numa única mesa, em planos tão próximos que entregam a alma e seus pensamentos, suas dores e verdades mais camufladas. Criando uma realidade dúbia por meio das sombras do que estava escondido e na luz das suposições do que se é.


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