A Barra está tão pesada que a violência do mundo real parece até cena de filme

Reportagem de José Carlos Avellar ao Jornal do Brasil publicada em 3/11/1977

Na primeira imagem de Barra Pesada uma mulher joga uma lata de querosene sobre o próprio corpo e acende um fósforo. A ação não prossegue. O plano se interrompe aí. Uma outra situação, aparentemente desligada da anterior, tem início. Numa bica de favela um pivete lava o rosto. Depois sobe ao quarto, acorda o amigo que ainda dorme e desce com ele para apanhar o que estiver mais à mão no balcão da lanchonete. É o café da manhã.
Na última cena de Barra Pesada, policiais e traficantes de drogas, numa batida conjunta, invadem uma favela para caçar um assaltante que, ferido numa perna, se escondera num barranco por trás de um terreiro de umbanda. O barraco é cerca, destruído numa fuzilaria de policiais e bandidos, e o assaltante, já meio morto, é brutalmente surrado por todos antes de receber o tiro final. Depois, no pé do morro, quando os policiais se retiram, os garotos da favela cercam os carros da polícia e começam a vaiar.
Sobre essa narrativa violenta, tirada de um argumento de Plínio Marcos, Reginaldo Faria, diretor do filme, diz o seguinte:

“Talvez tenha feito esse filme assim, com tanta violência, por um mecanismo de defesa, para botar pra fora uma série de coisas que pressionam a gente. Pressionam até na nossa linguagem, até na nossa forma de se expressar. A gente nem pode dizer as coisas direito. A violência que estamos sofrendo dá medo. É uma violência mais calada, muito mas sutil, mais requintada. Ela não se manifesta tão declaradamente na realidade. Numa ficção podemos tornar as coisas mais visíveis”.


A imagem da mulher que joga querosene sobre o corpo aparece outras vezes no filme, como uma espécie de motivo, à medida que aumenta a violência em torno dos protagonistas, dois pivetes, Queró e Negritinho, acossados por dois informantes da polícia, Teleco e Nelsão, que ao final do dia surram os garotos para arrancar deles o dinheiro roubado durante o dia nas ruas e lojas movimentadas do centro da cidade. De um certo modo a imagem da mulher coberta de querosene e com um fósforo aceso na mão funciona como uma alegoria das intenções do filme. Essa história violenta, narrada num estilo simples e realista, pretende atingir o espectador como um grito de desespero, pretende deslocar a plateia para a situação do filme, e fazê-la ver de perto, sentir na própria pele a violência do dia-a-dia.
O objetivo é levar o espectador a ver cenas de violência assim como um qualquer acidente visto ao acaso, na rua, como explica Reginaldo faria:

“Quando li o argumento de Plínio Marcos pela primeira vez imaginei uma solução fantasiosa. Pensei em começar a história com Queró ferido no barraco do morro, e contar tudo como um delírio do Queró. No delírio ele misturava tudo, a polícia e os bandidos. Mas logo abandonei essa ideia. Voltei a examinar o argumento porque me pareceu que nessa história o mais importante era cuidar da história mesmo e não de como filmar a história. As coisas tinham que acontecer em função da emoção despertada pelo tema, a técnica narrativa deveria nascer daí.
Em
Barra Pesada eu quis fazer assim como se a gente estivesse na rua e, de repente, visse um acidente. Como se uma camara de reportagem visse um acidente. A gente vê aquele momento. É impossível para um repórter colocar a camara no ponto-de-vista ideal, num local estratégico para ver idealmente um momento que ele não sabe o que vai ser. A força daquele momento vem do acontecimento em si, e da maneira imperfeita de ver. Procurei fazer o filme assim, como se pegasse uma coisa na hora em que ela acontece. Não marquei no roteiro como seriam as imagens. Escolhi os cenários. Lá ensaiávamos e depois de levantadas as emoções jogava a camara no meio da cena, como um repórter. filmei em som direto. Na dublagem o ator jamais reproduz o clima e a emoção da hora da filmagem. Pode só repetir tecnicamente, mas nunca passar uma boa emoção. A gente consegue extrair mais verdades do ator com o som direto, com a coisa na hora, embora tivéssemos feito antes um trabalho de preparação”.

O estilo de narração é simples. Nem planos de composição ou iluminação sofisticadas, nem muitos efeitos especiais, nem camaras lentas ou detalhes nos momentos de violência mais intensa. A sensação de brutalidade é levada ao espectador através do trabalho dos atores. Através dos socos de Nelsão, ex-lutador de telecatch, para tirar o dinheiro do pivete. Através do gesto brusco do jogador de sinuca, o salto com navalha na garganta do perdedor sem dinheiro para pagar. Através de uma expressão de raiva ou de dor, ou ainda através de uma fala mais brusca. Há momentos em que o espectador pode até nem perceber definidamente aquilo que os atores berram, com raiva. Ouve-se o grito, a palavra se perde, se mistura com os outros barulhos da cena. E isso faz a impressão de violência mais intensa, ela salta de dentro do ator em todos os momentos. Foi exatamente aí, em cima do ator, em cima do que se pode passar através da emoção do ator, que Reginaldo faria trabalhou a encenação:

“Antes do começo das filmagens fizemos ensaios de mesa. Acho que o ideal em termos de cinema é fazer assim como na montagem de uma peça de teatro, onde os atores têm mais tempo de preparar o papel. Na leitura de mesa conseguimos que todos tomassem consciência de seus personagens e da história como um todo. Daí começou o trabalho de despertar a emoção em cada um, coisa que não se consegue sempre de modo racional, intelectual. Para tirar a emoção do ator é preciso um estímulo que pode estar num piscar de olhos, numa coisa qualquer que a gente diz. Nem sempre funciona dizer para um ator que o sentimento que ele deve passar em tal cena é este ou aquele. Nem funciona o que eu fazia nos meus primeiros filmes. Eu fazia a cena antes, para mostrar como queria a coisa. Aí o ator me imitava, fazia sem sentir. E o importante é fazer com emoção. E para despertar a emoção ajudou muito a filmagem em cenários verdadeiros. A violência que a gente já tinha trabalhado em mesa foi confrontada com a violência que a gente encontrava nos ambientes verdadeiros. Porque essa violência está aí, existindo. A gente pode nem perceber às vezes. Mas é só sair por aí que a gente vê.”

Nas cenas iniciais a camara se afasta algumas vezes de seus personagens para mostrar apenas o cenário. Um ônibus que capotou numa esquina. A Presidente Vargas com o transito atrapalhado pelos desvios para as obras do metrô. Um edifício em demolição. Detalhes de prostitutas despidas num canto de rua velha. Bêbados na porta de um bar. Flagrantes em nada excepcionais, coisa comum, acidentes que qualquer um pode colher com os olhos ao passar na rua. Pedaços de violência que as pessoas nem sentem mais como sinais de violência.

Depois, sinais mais evidentes de violência tomam conta da tela: roubos, chutes, socos, facadas, tiros, surras brutais, muito sangue e uma permanente ameaça no ar, um fósforo aceso perto de um corpo coberto de querosene. Ao contrário das muitas histórias  sobre violência apresentadas recentemente no cinema, aqui não existe uma saída. Não se trata de um filme feito para mostrar um determinado tipo de herói que irá nos proteger, nem para mostrar uma determinada forma de violência que nos ameaça. O que o filme procura mostrar mesmo é a alva de Queró que sente medo, é a falta de saída de Negritinho, é a violência, não como uma ameaça, mas como um sistema instalado.

Barra Pesada não se limita, a meu ver, a uma ação gratuita de violência. As coisas que se apresentam em primeiro plano, tiros, socos, pontapés, facadas não representam todo o conteúdo do filme. O que eu quero é mostrar a metrópole. As batidas da polícia ou as batidas dos traficantes mostram a miséria das pessoas no fundo.
O que eu gostaria era que o espectador que visse esse filme não o encarasse como um policial americano de violência, com herói bonzinho e bandido mau. Aqui não tem isso. Todo mundo faz parte do mesmo contexto e todo mundo é produto de esquema social distorcido. Acho que tudo isso está no texto do Plínio Marcos, eu procurei foi jogar isso na imagem.
A violência mais importante é a violência social. A fome do Queró leva ao jogo de sinuca. Ele vai ali para defender a dele e arrancar o que comer. O importante não é o jogo de sinuca em si, mas o jogo que eles estão vivendo naquele momento. Não interessa a bola vermelha ou a rosa ou a preta. Interessa é o dinheiro que eles estão querendo tirar um do outro para sobreviver.
A outra forma de violência é a explosão de tudo isso. Ela está aí e a gente nem vê direito. Vê no jornal, vê às vezes na televisão, mas aí logo se mistura com o filme policial que passa depois. A gente não pensa na violência porque dá medo. A gente vê a violência como se estivesse vendo uma cena de cinema. Então essa forma de exagerar, de botar num ambiente conhecido do espectador um cara dando facada no outro, e muito sangue e tudo mais, é uma forma de protestar contra a violência, é uma forma de levar as pessoas a ver a coisa como ela é”.

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