Matéria publicada em O Jornal do Rio de Janeiro no dia 11 de setembro de 1949
O bate-papo ia animado nos estúdios da Atlântida. Estávamos no intervalo da filmagem de uma nova produção e a turma aproveitava o justo descanso para “matar o tempo” à maneira carioca…
Esgotado o repertório de anedotas, esvaziados todos os frascos de “veneno”, a conversa tomou rumos sérios. Falou-se da dificuldade de se escrever uma boa história para um filme, encontrar uma “ideia” que transposta para a tela consiga, realmente, empolgar o público. Um mocinho de óculos que fazia parte da roda e tinha pretensões a autor de argumentos, aproveitou a “deixa” para nos deslumbrar com os seus conhecimentos:
− No meu fraco entender − principiou ele, medindo bem as palavras − a melhor maneira de encontrar uma boa idéia para um filme é subordinar todos os fatos reais ou imaginários que ocorrem no binômio espaço-tempo às rigorosas leis do “montage” áudio-visual.
Houve risos disfarçados. Mas José Burle, que acabara de regressar da cabine de som onde estivera escolhendo fundos musicais para uma seqüência de Também Somos Irmãos não pôde se conter:
− Qual nada, rapazinho! Para se arranjar uma boa idéia para um filme o que é preciso… é ter boas pernas.
A gargalhada à custo contida diante da frase pedantesca do rapazinho, aproveitou a tirada intempestiva do Burle para explodir gostosamente.
− Estou falando sério! Não é pilhéria. Não fossem as minhas pernas e eu talvez nunca viesse a produzir Também Somos Irmãos.
Ante o pasmo geral, José Burle contou então a história secreta do seu filme:
− Um dia, em companhia do Alinor Azevedo, meu argumentista predileto, eu me perdi lá para as bandas de São Cristóvão.
Tinha ido àqueles lados à procura de um fabuloso estúdio cinematográfico que estava sendo montado por ali no estilo pomposo de Hollywood. Não encontrei o estúdio, mas encontrei coisa muito melhor: um “ambiente”. Depois de muito andarmos, perdemo-nos num labirinto de ruas estreitas. O lugar não me era familiar. Casebres de todos os lados. Gente de cor indo e vindo continuamente por aqueles caminhos sinuosos. Mulheres de lata d’água à cabeça. Crianças correndo daqui para ali na algazarra própria da idade. Homens de físico reforçado gingando o corpo no andar típico dos malandros de classe. Alinor olhou-me significativamente. Ele também estava empolgado com o espetáculo imprevisto. Aquilo ali era uma autêntica “favela” mas uma favela diferente, um tanto organizada, com armazéns de boa aparência, algumas casas de tijolos, uma escola acolhedora. Uma cidade dentro da cidade. Conheço quase todas as favelas do Rio, mas aquela me era completamente estranha. Devia ter surgido há pouco tempo naquele vasto terreno que ia ter às faldas de um morro. Aquele mundo estranho, de gente humilde, mas cheia de colorido e pitoresco, despertou-me imediatamente a idéia de um filme… um filme que narrasse os dramas daquelas vidas tão cheias de contrastes. Continuamos a andar em silêncio quando Alinor, que parecia ter lido meus pensamentos, exclamou de repente:
− Já tenho a história em que você está pensando… Sim, era verdade. Alinor havia me mostrado, há tempos, o esboço de um argumento que principiara a escrever. Lembrei-me do título: “Gente de Cor”. Não… não servia… Não era um bom título. Poderia ser mal interpretado. Era preciso escolher algo mais humano, que tocasse o coração do povo.
Entramos numa tasca que havia ali para pensar melhor. Então, sob a sugestão do ambiente rico de matizes, a idéia do filme foi se corporificando na nossa mente.
E o título surgiu numa explosão: Também Somos Irmãos… Sim! Narraríamos a história daqueles nossos irmãos de cor, as suas esperanças, os seus sofrimentos, os seus erros.
Alinor expôs-me rapidamente o seu plano. Colocaríamos naquela favela dois irmãos. Um seguiria o caminho do crime. Seria o famoso “Moleque Miro”. Outro procuraria dignificar a raça conquistando um diploma na Faculdade de Direito. Um negro de navalha sempre empalmada com um irmão “doutor” que o defenderia no juri das trapalhadas em que se metesse. Para movimentar melhor a história, os dois irmãos estavam vinculados a uma família rica. Colocaríamos em cena uma moça branca e um rapaz estróina para a trama sentimental. O filme seria realista, mostrando a vida como ela é, narrando um aspecto ignorado da “cidade maravilhosa”. Dei alguns palpites na história do Alinor e pensamos logo nos intérpretes.
Nem havia dúvida. Aquilo era filme para Grande Otelo. Ele seria o “Moleque Miro”. Um papel com passagens dramáticas como o magnífico ator sempre desejara desde “Moleque Tião”. E o outro? O irmão bacharel? Outro nome nos veio logo à mente: Aguinaldo Camargo, o esplêndido artista do Teatro Experimental do Negro. Seria ele o companheiro de Grande Otelo nessa nova jornada. Imaginamos o que seria esse duelo artístico. Dois grandes artistas num só filme.
Quando regressamos já tínhamos imaginado o filme todo. Estávamos com as pernas fatigadas de tanto andar, mas, em compensação voltávamos para casa com a “ideia” de um filme bem espetada no crânio. Atiramo-nos ao trabalho com entusiasmo. Se a coisa valeu a pena ou não, o público dirá quando vir o filme. Digam-me agora: tenho ou não tenho razão quando digo que para se achar uma boa “idéia” para um filme basta apenas ter boas pernas?
O mocinho de óculos concordou meio encabulado e nós ficamos satisfeitos com a curiosa revelação do experimentado diretor da Atlântida. Tínhamos agora algo de realmente interessante a contar aos nossos leitores…


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