Neville D’Almeida: da liberdade à estética do deslimite

Trechos de entrevista com Neville D’Almeida realizada por Pietra Fraga, publicada na ARTECAPITAL

P: Recorda-se de como foi a chegada no Rio e do seu contato com o meio cultural da altura? Já trazia um projeto consigo? Que expectativas tinha e o que é que encontrou? 

R: Eu fui para Nova Iorque para estudar cinema, tinha um concurso de curta-metragem no Brasil, em 1966, e eu fiz uma curta-metragem chamada O bem-aventurado, para o festival nacional de Cinema Amador JB-Mesbla. O presidente do júri era o Nelson Pereira dos Santos e o nosso filme ganhou um prémio. Enfim, eu esperava mais, voltei para Nova Iorque, estava trabalhando, conheci o Nelson Pereira que ia fazer um filme chamado Fome de amor, que ia ser rodado em Paris. Ele, me conhecendo, passou o filme para Nova Iorque e me chamou para organizar a produção do filme. Eu fiz a produção do Fome de amor e voltei com o Nelson para o Rio para fazer cinema, voltei com um projeto chamado Jardim de Guerra. Eu tirei esse nome de um livro de um poeta português.
Alguém me mostrou o livro e eu gostei do título. Eu tinha feito um nome que era assim: Decúbito dorsal. Aí o Glauber falou assim: – Pô, esse nome é horrível, você já pensou alguém ir no cinema assistir Decúbito dorsal? Eu falei: – Cara! Tem toda a razão… tenho de arranjar um nome bom, esse é muito dramático. Enfim, aí vi o livro e falei: – Pô, Jardim de Guerra, genial. Glauber! Bolei um nome Jardim de Guerra. Ele falou – Genial! Foi o maior barato.
Eu cheguei com o Nelson aqui com o projeto de fazer o Jardim de Guerra e conheci as pessoas do Cinema Novo: o Gustavo Dahl, o Carlos Diegues, o Nélson (que eu já conhecia), o Walter Lima Júnior, Paulo César Saraceni… O Nélson me apresentou a essas pessoas, eu não era desse grupo, mas foi muito bom conhecê-los. Mas eu sabia que aquele não era o meu caminho e eles também entenderam rapidamente que eu não era um deles, que era um amigo deles e que tinha uma grande admiração, mas que eu não queria fazer nada como eles faziam. 

P: Um cinema politizado, contaminado pela esquerda? 

R: Mais do que contaminado pela esquerda, era um momento criado e estabelecido e eu achava que tinha uma coisa mais moderna para o cinema, do que ficar preso, de suscitar um mau filme aos trâmites de um discurso, através da política, através da ideologia… eu acho que a gente deve ter um cinema cada vez mais livre. Era o meu primeiro filme, eu não identificava isso naquele cinema, era um cinema muito esteticista, mas muito comprometido com conceitos muito antigos. Era um cinema que pegava a câmara na mão, uma série de coisas, mas existia um conservadorismo que eu achava que a gente devia ir além disso e quebrar isso, devia ser um pouco ou totalmente iconoclasta em relação ao cinema, em relação à linguagem e em relação à liberdade de linguagem. Você está começando agora, procura ser o mais livre possível, talvez isso seja o mais importante, você tem que buscar ser livre: na criação, na invenção e não apenas ser livre de palavras, na retórica. As pessoas confundem a retórica com a criação mesmo. Tem que ser livre na criação, naquilo que você se expressa. 

P: Ser livre nesses trâmites envolve correr riscos e falhar… 

R: É, sem dúvida. Ser livre é aquela coisa de desde o princípio buscar a liberdade dentro dessa arte e ter a consciência de que o cinema não é uma arte livre, o cinema é uma arte cativa. Arte livre, o que é? A pintura, a música, a literatura… Já pensou quanta liberdade existe nestas artes? O cinema é muito comprometido com a indústria, com uma série de coisas.
O cinema é uma arte cativa. Você está começando a fazer cinema e o que é que você quer? O cinema cativo como sempre foi? Ou você quer buscar mais, pensar mais, ir de encontro a outras ideias, não ficar conformista achando que coisa linda é o cinema, mas o cinema é caro… 

P: Depois do Jardim de Guerra – que teve aquela recepção traumática – como foi ser um cineasta que procurava trabalhar a liberdade num período de censura militar? Um contexto que o próprio Neville aborda no Jardim de Guerra… 

R: A verdade é que apesar de tudo eu não consegui exibir os filmes então, houve sim um trabalho muito difícil. Quando ficou pronto o Jardim de Guerra, em setembro de 1968, em novembro é editado o tal do Ato Institucional N.º 5 onde cortava todos os direitos e liberdades civis e era um momento impossível, o filme foi proibido, interditado e jamais exibido. Então eu lutei mas não aconteceu. Então eu fiz mais outro filme chamado Piranhas do Asfalto e aconteceu a mesma coisa. Isso aconteceu comigo com os meus dois primeiros filmes. Eu tinha um apartamento com o meu irmão em Belo Horizonte, eu vendi. Eu tinha um apartamento no Rio que vendi, eu vendi tudo, gastei todo o dinheiro que eu tinha conseguido até ali nesses filmes, mas eu achava e sabia que o importante era ser livre e não ficar baseado nos inconformismos. Eu não queria ser conformista, eu não queria deixar que as pessoas pudessem atrapalhar.

Newsletter

Assine para receber nossos textos críticos e lembretes para as sessões.

Processando…
Legal! Você está inscrito. Agora, você receberá uma prévia de nossos posts por e-mail e também lembretes pontuais das sessões do cineclube.

Deixe um comentário


Cineclube São Bernardo

Cinemateca de Curitiba

R. Presidente Carlos Cavalcanti, 1174

São Francisco, Curitiba – PR, 80510-040

cineclubesaobernardo@gmail.com

Newsletter

Assine aqui

Frequência

Quinzenal, quartas-feiras

19h — 22h