São Bernardo: escritos da ambição, da alienação e da tragédia

“Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado”. Começo pelo final. Com a fala que o personagem Paulo Honório, protagonista, discursa em seu monólogo em seu momento derradeiro. Conseguindo descrever em poucas palavras o sentimento que vem permeando a nós, espectadores, ao longo do filme. A dualidade que seu personagem carrega de ser aquele que é usado pelo sistema, mas que deixou-se ser utilizado por ele, fazendo-o um opressor enquanto atinge seus objetivos mais ambiciosos e, ao mesmo tempo, levando-o ao ponto de sentir-se engolido e afetado, obtendo o sentimento de inutilização. Um ciclo para quem tem o deleite da autorreflexão.

O filme São Bernardo (1972), com roteiro adaptado do romance de Graciliano Ramos, possuindo o mesmo título e dirigido por Leon Hirszman, conta a vida do ex-agiota Paulo Honório. Sentado em uma mesa, sozinho, à meia luz, Paulo Honório relata sua vida. Por meio da utilização das palavras ao seu favor, e suas omissões ao desfavor do outro, arremata as terras de São Bernardo, localizada na cidade de Viçosa, Alagoas, o cenário de todo um enredo que demonstra como a pessoa de Honório constrói uma cosmovisão pautada no capital. Seus negócios, suas relações, sua família. Na ânsia por um herdeiro, casa-se com Madalena. São Bernardo é a representação da construção de uma microcidade a partir de um idealismo capitalista.

As terras são apresentadas visualmente como se fossem quadros pintados. Se não havia a intencionalidade na jogada metalinguística, o longa-metragem traz uma grande analogia do que podemos chamar de quadros, e estes, em longos planos. O filme São Bernardo não deixa de ser uma exposição visual de apresentação de suas terras. O enquadramento, as cores, as linhas e suas simetrias e assimetrias, a iluminação com aspectos chiaroscuro poderiam ser lidas como referências renascentistas brasileiras com o toque barroco em sua arquitetura. Um monólogo acompanhado de imagens que forjaram sua ambição.

Madalena, sua esposa, dita por Honório como uma mulher sem religião, é uma jovem professora de 27 anos, que mora com sua tia até a decisão de casar-se com Paulo Honório. Uma decisão feita por ele, com objetivo de angariar um herdeiro. Para Madalena, mesmo sem amor, aparentou, depois de certa reluta, ser a escolha correta a se tomar. O enredo do filme volta-se para esta relação e para como Honório enxerga as ações e opiniões de Madalena com o ponto de vista de como enxerga toda a sua vida, visando o lucro e seu grande medo e ódio ao comunismo. Madalena vira neste enredo, seja pela conotação de seu nome, a representação de muitas: subjugada e mártir do ódio de Honório, seu marido.

Com o tempo, as ações de Madalena suscitam as desconfianças baseadas na alienação capitalista de Honório. Visitar pessoas da região, conversar sobre cultura, arte, livros, a demonstração do seu senso crítico, levaram Honório a acusar Madalena de traição com o que ele mais temia: o socialismo. O filme transforma-se de modo natural em uma retratação sobre uma vida a uma internalização psicológica do eu entre os personagens de Paulo Honório e Madalena. Um efeito de ação e reação. Mas que neste caso são instigados por um único lado. A forma como a pessoa de Madalena reflete em Honório os seus mais temíveis medos, reflete nesta microcidade regida pelo coronelismo os efeitos que uma vida controlada pelo capital pode causar: amargura, morte e alienação. Este modo de vida o inutilizou, não só a ele, mas a todo o funcionamento da ordem regido por suas escolhas. 

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Quinzenal, quartas-feiras

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