Transcrição de parte de entrevista concedida por Walter Goulart à 2ª temporada da série A Linguagem do Cinema, dirigida por Geraldo Sarno.
Pegamos a conversa de canto de orelha. Entramos no meio do papo e ouvimos o trecho da entrevista referente à obra de Leon Hirszman.
(Walter) Isso, trabalhar com ator, isso que é importante. O som trabalhar com ator, trabalhar com a direção. Então, praticamente a gente se sente também um diretor do filme. A gente tá dirigindo, entendeu? Eu acho legal isso.
A Falecida já foi no estúdio do De La Riva, na rua Alice, o Casarão, que era um estúdio da época de ponta. Imagine, era um estúdio de ponta! E eu fiquei tão empolgado com o filme, de fazer os efeitos, os ruídos, que eu fui conhecer a vila. Olha que maluquice minha. Eu fui conhecer a vila pra ver como era o piso: se era cimento, é… o tipo de cimento, entendeu? Eu acho que foi antes da A Falecida, eu fiz Pedreira, de São Diogo.
(Geraldo) Não me diga.
(Walter) É… os ruídos, eu sonorizei na Atlântida. Pedreira de São João, que é um dos episódios de Cinco Vezes Favela, né?
(Geraldo) Sempre você e o Geraldo José?
(Walter) Sempre eu e Geraldo José, entendeu? Foi meu primeiro contato com Leon. Eu não conhecia Leon, depois ficamos grandes amigos. Me chamava de: “E aí jacaré?” Uma brincadeira! Grande Leon!
(Geraldo) Aí se você quer completar Leon, tem que falar de São Bernardo.
(Walter) É, pois é, São Bernardo, que é meu, é meu quindim, porque São Bernardo teve uma coisa muito interessante, que é o diálogo com o diretor. É importantíssima a técnica, né! É um filme todo em som direto, é… Então, você conversar com o diretor, o diretor passar o que ele quer do filme, antes de ir pra locação. Nós éramos um tripé: direção do Laurinho de fotografia, eu no som, e o maravilhoso Leon, entendeu? E dessas conversas nós fazíamos leitura antes, fazia leitura de texto com os atores, e ele já ficava ligado.
Eu usei um… um Nagra 4L, que era a coisa maravilha do momento. Eu gosto de trabalhar com microfone aéreo, e trabalhar com ator. Na leitura do texto, faz um ensaio com a câmera. Eu falava com jeitinho, com aquele jeitinho, que tem que ter jeitinho, o técnico tem que saber se aproximar do ator, tem que saber falar com o ator, entendeu? Como se eu fosse limpar, sabe àquele negócio que você tira um pelinho? Eu falei: “Otto, àquela fala…” Eu falando baixinho: “Àquela fala eu não estou entendendo.” Aí eu usava o termo: “Mastiga bem as palavras.” Entendeu? E ele gostava disso, porque ele confiava. Ele rodava primeiro, ele… Ele não olhava pro Leon, ele olha pra mim pra eu dar ok, entendeu? No som.
Na cena da igreja, é um travelling maravilhoso que o casal estava sentado, entendeu? E começa um travelling, um movimento de respiração. O travelling é como se fosse uma respiração, ele vai e independente do travelling, tem o movimento de zoom, entendeu? Suave, e de repente quando você vê, tá os dois em quadro, entendeu? Sem você perceber que tem esse movimento, entendeu? Isso é delicadeza, entendeu? Isso é coisa do Leon e do Laurinho. Que o Laurinho fazia fotografia e fazia câmera.
Na entrevista, é exibido um curto trecho de São Bernardo, Walter retorna contando do processo de composição da trilha musical do filme.
(Walter) A própria música, entendeu? Foi feita com imagem, já foi feito num estúdio, na Somil. Eu me lembro, eu estava… eu acompanhei inclusive, eu tinha… Fazia parte do meu trabalho acompanhar por toda parte de sonorização, de finalização. Então, Caetano me entra no estúdio, tal coisa, com a voz numa primeira pista, foram gravadas em três pistas. Numa primeira pista ele faz uma xeremia. É uma xeremia, uma coisa bem de raiz, é uma coisa bem forte. E depois ele faz em outro tom, em uma outra pista, e fala àquela coisa maravilhosa, entendeu? Isso é o quê? É um casamento? É um casamento de pessoas que estão pensando em fazer cinema. E fazer cinema são várias cabeças, mas com um único conteúdo, que é o quê? Realização.
O São Bernardo me deu uma chance de mostrar o que pode se fazer com o som. E o Leon, ele me deu total abertura sobre isso, ele nunca questionou por que esse som é assim, pelo contrário, ele quis saber como é que nós vamos fazer. E eu dava minhas ideias e achava ótimo, entendeu? A narração, a narrativa do Otto durante o filme, nós mantemos a mesma conotação sonora, com o mesmo microfone, entendeu, e o mesmo ambiente.
(Walter) Nós fizemos a narrativa antes, entendeu? Fazia ensaio de determinado tempo você soltar, porque tá interpretando a narrativa dele, entendeu? Você fala uma coisa bonita filmando a narrativa, e eu embaixo da mesa com o Mário, soltando tipo um playback pra ele fazer àquela interpretação. E nós tínhamos a coisa da luz, entendeu, que é uma luz, um pavio de vela que vai, vai, vai, por sorte, ela vai apagando, a imagem vai se diluindo, entendeu? Isso é som na dramaturgia, a importância do som.
Fim.


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