TERESA TRAUTMAN – Uma aquariana atrás da câmara 

Entrevista publicada no Jornal do Brasil, 22 de junho de 1973 Caderno B, página 4

O filme Os Homens que Eu Tive – com lançamento marcado para o próximo mês, no Rio – assinala um fato inédito no moderno cinema brasileiro: o primeiro longa-metragem realizado por uma mulher. Teresa Trautman, 22 anos, paulista filha de alemães – cuja língua aprendeu antes do português – é também autora do argumento e do roteiro. 

Nas décadas de 30 e 40, a pioneira Carmem Santos e Gilda de Abreu – mulher de Vicente Celestino e diretora de O Ébrio, talvez o maior sucesso popular de nosso cinema em toda a sua história – já tinham mostrado que esse campo, como qualquer outro, não estava fechado às aspirações femininas. Mais recentemente, muitas mulheres realizaram curtos mas só Teresa conseguiu romper a barreira do longa-metragem.


O CLARO DESPOJAMENTO 

Para chegar lá, Teresa passou por várias etapas: encenou peças em São Paulo, dirigiu o episódio Curtição do filme Fantásticon: Os Deuses do Sexo e foi assistente de direção, produção e montagem de Revólveres Não Cospem Flores de Alberto Salva, seu marido. Esse processo, ela o classifica como “o esgotamento natural, por etapas, de todas as vivências da minha cuca, do meu coração aberto a todas as transações, todos os gestos, porque viver é isso, o teu lado diurno em harmonia com as zonas de sombra”. 

Admiradora de Agnés Varda, particularmente de As Duas Faces da Felicidade, e fascinada pelo último trabalho da italiana Lina Wertmuller, Mimi, o Metalúrgico, Teresa Trautman define assim Os Homens que Eu Tive.

— Procurei deixar tudo claro no filme – a começar pelo título – cujo despojamento pode às vezes confundir. Há luz em tudo. Nos móveis. Nos personagens. Nada se esconde. Tudo aparece porque não existem sombras onde possa caber o pecado, porque ele é um chavão com que a gente aprendeu a fechar toda ideia das coisas. A luz, espontânea e crua, devassa e apresenta como um dado natural o que vestimos com o conceito de pecado. Não acredito em dualismos. Não sou de Deus nem do Diabo, sou muito mais o último Dráculo a que assisti: rei sozinho, ignorando a briga entre as duas forças.

Trautman se confessa uma aquariana convicta – filha de uma alemã do mesmo signo e mãe de Pierre, de três anos, também aquariano – e a partir desse dado se justifica:

— Sou muito o vento, em arte ou na vida, o que pode parecer tolo, mas reflete sempre minhas atitudes diante da existência, das pessoas que amo ou odeio, do meu filme, porque sou sempre mutável e, como Pity (Darlene Glória), a heroína do filme vou e volto em brisas constantes, afundo nos furacões. Uma aquariana paciente de psicanálise – individual e de grupo – também como uma forma de buscar, de viver com calma o conhecimento. A reflexão convertida em ato natural. E com verdade.


UMA MULHER DE PEIXES

O roteiro inicial de Os Homens que Eu Tive foi elaborado, inicialmente, para Leila Diniz, amiga íntima da cineasta.

— A morte de Leila ocorreu 18 dias antes da data que havíamos marcado para começar a rodar o filme. E a coisa me chocou a tal ponto que senti morrer o personagem, tanto ele estava ligado à vida de Leila e também à minha. Tive então que repensar tudo. Fiquei escondida em Parati, fundindo a cuca, com a obsessão de encontrar alguém que se encaixasse em Pity (ou em Leila?).

Viajou em seguida para Salvador. Quando voltou ao Rio, o personagem já tinha nascido para Darlene Glória.

— Muito antes de Toda Nudez Será Castigada, eu já admirava o trabalho de Darlene. Ela é uma mulher incrível, de Peixes, e uma atriz extraordinária. Como a minha heroína, que ela conseguiu, mais do que captar, viver com todas as forças. Porque Pity, como todos os indivíduos, às vezes é sublime: ela é uma ânsia permanente de vivências, não se importando com o que é melhor ou pior, não selecionando, mas tirando de cada experiência o despertar de uma resposta que já estava dentro dela, adormecida.

Assim são os homens que Pity teve, interpretados por Gracindo Junior, Arduino Colasanti, Milton Morais e Gabriel Arcanjo. A posição de todos os personagens, segundo Teresa, é definida pela phrase final da narradora do filme, Isabel Ribeiro, resumindo a última paixão vivida pela protagonista: “Então ele ensina a Pity que a vida é o que é, e que apenas pode ser vivida sem medo, rancor ou sofrimento”.

Teresa Trautman, que já foi atriz, explica que escolheu a direção cinematográfica porque sentiu que esse meio lhe dava a possibilidade concreta de criar um sonho.

— Optei pelo cinema simplesmente porque através dele posso criar todo um mundo, em cor, forma, movimento, climas. Fazer filmes, para mim, começa desde o processo em que vivo a experiência até transformá-la em roteiro e chegar a hora de comprar a entrada na bilheteria, sentar na poltrona e assistir, como espectadora integrada à plateia, meu filme como coisa alheia a mim. Mas profundamente íntima.

Os olhos verdes da quase adolescente e grave Teresa Trautman ganham mais vida, como se lembrasse uma experiência vivida calma e intensamente.

— Depois de fazer um filme é como se eu tivesse esgotado todas as possibilidades de mim mesma num dado momento e numa época da existência comum, cotidiana. O filme está pronto, diante de mim, um universo em movimento. Eis o filme. Mais tudo aquilo que propus sinto como coisa vivida a fundo. E completada.

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