Noites Paraguayas (Aloysio Raulino, 1982) se abre com vários personagens, mostra diversas cenas que oscilam entre o trabalho no campo, o cuidado entre familiares e a rotina de crianças na escola. Rosendo, o personagem condutor dessa narrativa (que a primeiro momento poderia ser principal, a primeiro momento) aparece um tempo depois e sabemos que ele terá, junto a sua namorada, Alma, um espaço especial dedicado ali no filme. Esse fato não se constata tanto pelo tempo de tela em que ambos aparecem, mas sim por uma certa presença que esses jovens carregam justamente por serem jovens e talvez por isso, carregados de sonhos, condutores de uma história em construção.
Para Rosendo, a construção de um sonho talvez não fosse ali, para Alma o filme não deixa tão evidente, mas talvez o sonho estivesse sendo vivido na sua ocupação como professora, na presença diária com as crianças e no afeto entre adultos e velhos, dia após dia. Após o aviso de que Rosendo vai procurar trabalho no Brasil, temos uma cena que se desconecta visualmente do plano anterior, sabemos que o que é falado é dirigido para Rosendo por conta do conteúdo, mas a presença desse senhor na janela de forma frontal e dirigida para a câmera é uma das várias inserções do filme que não falam somente com Rosendo, mas com todos os presentes dentro e fora de campo.
“Pois bem, amigo, mas acho que você não devia ir. Que vamos fazer? Você não vai embora para se perder, mas para ver se lá tudo melhora. Quero lhe falar uma coisa: se você vai fugir da pobreza, vai fugir de si mesmo. Nosso país tem tudo do que os outros países chamam grandeza. Só nós não podemos alcançar. Não vá acreditar que nossos amigos que foram para outros países e não voltaram mais estão tão felizes. Não é assim. Muita coisa pior eles sofrem, porque não querem voltar do mesmo jeito que saíram. Sob o perigo está o ganho, disse o contrabandista. Você deve experimentar. Como dizia minha avó: quando alguém é pobre e ignorante, não cabe em nenhum lugar. Onde estaria a pobreza e a ignorância, se os ricos e os intelectuais não existissem?” (Diálogo extraído da cena acima mencionada do filme).
“Deus me faça brasileiro, criador e criatura1”
Rosendo é condutor e não protagonista porque a partir de sua história somos apresentados a tantas outras e não somente a partir da relação dele com outras pessoas. Muitas vezes “perdemos” Rosendo de vista, muitas vezes esses outros personagens se reportam diretamente a nós, o público, através da sua frontalidade. Na linha tênue que delimita ficção e realidade, elementos aqui fortemente tensionados e misturados, a câmera frontal, o posicionamento dos personagens frente a essa câmera, as fantasias e os cenários discrepantes com a construção de uma diegese esperada até o encontro com esse filme também são responsáveis por explicitar, através da intervenção praticamente tátil na imagem na medida em que salta aos olhos, a construção do sonho desses personagens no filme dentro da realidade difícil da cidade. Tornar tudo palpável no que se tem de mais absurdo para mais tarde virar desilusão.

No sonho reside a esperança de pertencimento e de finalmente encontrar um lugar no mundo, se espera que tudo que existe no aparente percurso certeiro para isso (se matar de trabalhar? Imigrar?) seja um trajeto ao menos recompensador. Rosendo e Pedrito chegam a São Paulo e são recebidos em caravana logo após uma longa cena da vista da cidade com a música Meninas do Brasil (Moraes Moreira, 1980). Pedrito toca a harpa em um viaduto do centro da cidade e é ovacionado com confetes de papel colorido. O “turista” brasileiro em seu próprio país que oscila entre a adoração e o desespero pelo Brasil no seu ufanismo, o pedreiro que toca nas teclas do piano improvisado na tábua de madeira e toda fabulação possível nos cenários, chapéus e aviões de papel e plástico, até o momento da desilusão/despertar do sonho que no fim das contas confirma que apenas se foge da pobreza (perdendo-se de si mesmo), tal como o garçom que vive importunado pelo diabo e seu trompete.


“Liberdade é quando eu rio na vontade do assobio”
Nas inúmeras tentativas de ocupações, trabalhos e promessas de uma vida melhor, Rosendo só coleciona desilusões. É em Dom Lorenzo que ele tenta buscar algum tipo de apoio, mas Dom Lorenzo já avisa que ele não vai chegar muito longe vendendo camisas bordadas para cineastas da Boca do Lixo, já que depende do dinheiro que eles dificilmente vão ter e aí os dois caem na risada. Quando sua espécie de tutor decide ir embora, Rosendo também decide acordar do sonho e não satisfeito ele acorda Pedrito, comunicando sua partida. Como carregar o Paraguai com ele sem tê-lo sonhado de fato?



“Se a beleza não carece de ambição e escravatura e a alegria permanece e a mocidade me procura”
No movimento da despedida e da volta Alma segue o trem até perder Rosendo de vista, mas se mantém na sua terra. Se no início deste texto se afirma um espaço especial aos dois jovens, é porque ele se confirma nesse retorno à terra, à Alma. O sonho reside neles, o sonho que sempre esteve ali para Alma e que se confirma no seu suspiro de alívio e felicidade nos minutos finais enquanto finalmente dorme com Rosendo. É no vilarejo que ocorre o casamento, que são feitos os prédios, os aviões, as bandeirolas (“nosso país tem tudo do que os outros países chamam grandeza”) e a vida segue acontecendo para todas as pessoas que estão ali, naquele país e que seguem construindo seus sonhos, na tentativa de não fugir de si mesmos, firmar raízes.




- Trechos da música Meninas do Brasil (Moraes Moreira, 1980) no início de cada parágrafo. ↩︎


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