Esta dupla estrutura apontada em Noites paraguaias, linearidade e concatenação/fragmentação e descontinuidade, é um traço marcante desse cinema paulista, pelo menos na virada dos anos 70 para os 80. Como se houvesse uma sedução pela fragmentação, herdada de uma tendência dos anos 60, mas também um receio diante do perigo da dissolução, dissolução da obra e dos laços com os espectadores. Como se houvesse uma sedução pelos cânones da modernidade, do fragmentado. Ou como se, ao contrário, a tradicional narrativa, constantemente ameaçada de dissolução desde o século XIX, mas sem disposição para entregar os pontos, renascesse mais bela e formosa após cada tempestade, fazendo pouco caso dos agressores fragmentados.
Noites paraguaias parece-me ter atingido o equilíbrio, o que o torna, além de suas indiscutíveis qualidades intrínsecas, um momento altamente significativo do cinema paulista. Noites pode ser interpretado, sob certos aspectos, como um filme do início dos anos 60 – temos a narrativa linear de que já falei, com situações dramaticamente resolvidas, o enredo que se fecha sobre si mesmo, voltando a seu ponto de partida e acompanhado das devidas “mensagens”, como se diz. A volta de Rosendo ao Paraguai apoia a fixação dos camponeses na terra e apresenta a cidade grande como ilusão; o “recado” está dado. Esse intuito pedagógico não ocorre no nível apenas do conjunto do filme, mas também de pequenas cenas que contribuem para a significação geral. Por exemplo, essa em que a ingenuidade de Rosendo deixa-se seduzir por um guarda-chuva que se dobra: ele compra o gadget, apesar de sua situação financeira não estar brilhante, e ele estar sem trabalho. Os gestos de Sergio Mamberti, que contracena com ele, tanto traduzem a sua impaciência pelo atraso que a compra do guarda-chuva acarreta como reforçam a significação pedagógica da cena: Rosendo está praticando uma ação compreensível, mas inconsequente.
Nesses momentos, o filme oferece significações claras, que se encadeiam, se complementam, e contribuem para a significação global do enredo: a volta à terra natal é positiva. Essa significação global é fechada, ela controla e canaliza a seu favor os vários elementos que se ligam a ela. Em contrapartida, as significações vinculadas aos segmentos relativamente autônomos não contribuem para essa significação geral, não se deixam limitar por ela, não são reduzíveis a significações precisas, não são convergentes, flutuam no espaço e deixam ao espectador a faculdade de estabelecer entre elas relações que o filme não impõe. Por exemplo, a sequência do diabo pode ser tomada em si, mas, se quisermos, podemos associar esse diabo a uma sequência em que um ator faz uma paródia da crucificação de Cristo, e ver no filme um subtexto que nos oferece uma visão grotesca da mitologia cristã.
O que é marcante em Noites paraguaias não é tanto a presença desses dois princípios antagônicos, e sim a sua convivência. Nada de imaginar a fragmentação como um monstro de olhos vermelhos corroendo a linearidade que resistiria, heroica e desesperadamente.


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